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A CIDADE E O SONHO
Data: 05/02/2010
Edição: 5135
Houve um tempo em que a cidade de Itu era cenário recorrente dos meus sonhos. Não me refiro aqui aos sonhos que se tem acordado, mas àqueles durante o sono, e que, quando acordamos, ficam por horas ou dias a passear na lembrança.

Os sonhos que tive com a velha Itu, que completou 400 anos de fundação, fizeram surgir em mim uma cidade onírica, uma cidade do imaginário, que não é exatamente aquela que de fato ali está, e cujas ruas conheço tão bem. Mas uma assemelhada, que me aparecia com esquinas, ruas e construções suficientes para que eu reconhecesse, dentro dela, a cidade real. Acrescidas, porém, nos sonhos, de ruas a mais, becos a mais, igrejas venerandas que de fato não existem hoje, sobrados e pequenas casas, largos e fragmentos de paisagem. Foi por essas porções de cidade que eu, nos sonhos que tive, caminhei, sempre deliciado em explorar o que viria após dobrar uma rua. Seria capaz até de encaixar na paisagem da Itu real as frações modificadas com que sonhei: o solar envelhecido que estaria pelos lados da praça Conde de Parnaíba; a fieira de casinhas humildes que teria sido, talvez, a rua Santa Cruz em tempos outros; o pequeno e antigo jardim florido, oculto num espaço inexistente nos arredores da Igreja da Candelária.

Sei que essa cidade algo imprecisa é filha daquela que amei e construí no meu gostar, ao longo das décadas que vivi. É filha dos relâmpagos de memória que tenho da infância, dos quatro ou cinco anos de idade, levado pelas mãos da avó, a cruzar a Praça Padre Miguel com a cabeça jogada para trás, contemplando as construções; a me afundar por ruas afastadas, no rumo da casa de um parente; a aguardar pelo desnível na estrada velha de Salto, quando o balanço do ônibus fazia a barriga do menino esfriar. A cidade dos sonhos deriva do tempo de ainda se ir de trem a Itu; do vagar descompromissado por suas ruas, quando ela se fazia palco delicioso do garoto que se aventurava na liberdade dos primeiros passeios a sós. A cidade dos sonhos é fruto das muitas madrugadas nos seus bares, dos risos, das paixões, das tolices, dos desejos que a cidade real de mim acolheu e a mim concedeu. Certamente, ela foi tecida na trama das horas de meditação, de cansaço, de planos e tantos sentimentos, deixados sob as sombras das árvores em seus caminhos rurais, das aflições e mágoas remoídas nos bancos de suas igrejas e praças, da contemplação encantada dos tesouros deixados em seus museus ou estampados na fachada vetusta de seus sobrados. De vadiar pelo velho mercado, de passar pelas porteiras das fazendas, de apreciar a chuva caindo numa calçada estreita, sobrevivente de tempos idos.

Creio que esses sonhos que tive nasceram para compensar outros, que não pude realizar. Até por saber-lhe os defeitos teimosos que tem, com os quais por vezes me irritei. Mas, devem ter acomodado as visões de bandeiras, índios, cantos e rezas, saraus, caçadas, poemas, enforcamentos, ladainhas, amores, violas e procissões de vidas e vozes nas voltas do tempo. Acomodaram o deslumbramento que compartilho com Afonso de Taunay e Mário de Andrade, que souberam admirá-la, quando ainda era chamada de ”A Ouro Preto Paulista”, antes do descaso que destruiu parte de seu patrimônio, sentimento que compartilho com os amigos queridos que tenho ali, que a amam e defendem e exaltam no limite de suas forças. São partícipes do desejo de que ela, a quatrocentona que está recebendo uma festa tão aquém do seu merecimento, tivesse sido mais respeitada - e fosse ainda hoje - por quem poderia zelar pelos bens que perdeu, pelos tesouros que ruíram, pelas tradições desamparadas. Por quem poderia ajudar a educar o povo no conhecimento e no respeito aos valores invejáveis que sua cidade tem. Por quem poderia amenizar a pouca estima e a pouca compreensão das grandezas reais dessa Boca do Sertão, dessa Mãe de Cidades, dessa eleita do imperador, dessa princesa do açúcar, dessa matriz da melhor tradição caipira, dessa republicana da primeira hora, dessa terra que reúne em si capítulos tão vários da história e da cultura de seu país. Faltaram-lhe, por vezes, amantes mais efetivos e menos demagogos, que traduzissem em atitudes concretas de amparo o discurso inócuo das promessas vazias ou – pior – o desconhecimento completo da nobreza da terra pela qual deveriam zelar.

Não é minha terra natal. Sou filho da outra margem do rio, onde está o salto d’água que batizou as duas cidades, mãe e filha, Itu e Salto. Mas, ali sempre estive também, e ali mesmo fui viver, por algum tempo e por escolha pessoal. Como escolhi para mim o dito latino Ubi bene, ibi patria, pátria é onde se sente bem. Assim, além desta onde nasci, tenho outras pátrias; dentre elas, aquela da margem de lá, por quem pude fazer muito menos do que, um dia, desejei fazer. Mas que, à sua forma, sempre me acolheu e respeitou. Por isso, pela mescla de quereres, de favores, de frustrações, de encantos, de todo um vasto viver e sentir, é que a cidade onírica, a Itu com a qual tantas vezes sonhei, é menos fruto dela própria, do que fruto de mim. Ou é ela moldada dentro em mim. Ou sou eu, perdido no amor que tive dela.

É assim, num sentimento variado, como variada é sua trajetória de quatro séculos, que lhe dirijo um olhar amoroso a mais, de antiga e comovida cumplicidade, quando a reverencio, agradeço e lhe beijo as veneráveis mãos. Quando lhe desejo, pelos tempos por vir, que tenha o melhor.

Valderez Antonio da Silva

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