Artigo: Obrigado Jacob

Por Marcio Pitliuk*

Jacob tinha um jeito de contar histórias e “causos” que só quem é do interior tem.  Hábito de quem morou praticamente a vida toda no interior de São Paulo e do Paraná. Fechava negócios com um aperto de mão ou no fio do bigode, como diz o caipira.

Era uma pessoa extremamente simples e seu escritório não tinha luxos. Quando oferecia água para o visitante, não chamava a secretária ou a copeira, ele mesmo pegava a garrafinha. Era impossível não ficar à vontade com ele, que tratava a todos com gentileza e sem formalismo.

Quem não o conhecia, não imaginava que era sócio de um grupo de cinco empresas que atua em concessões rodoviárias, obras públicas, urbanizações, loteamentos com projetos complementares como campos de golfe e centros hípicos, hotéis, outlets e shoppings centers. Um dos maiores self-made-man do Brasil.

Jacob nasceu em 1926, era filho do litvak Leon Federmann e da ucraniana Pácha. Litvak é como são chamados os judeus lituanos. Seus pais vieram para o Brasil fugindo do antissemitismo do Leste Europeu, onde os judeus eram perseguidos e tinham poucas oportunidades de progredir na vida. No Brasil Jacob pode estudar, trabalhar e criar sua família, tinha três filhos, seis netos e dois bisnetos.

Se formou em engenharia, trabalhou no DER, até que em 1963 decidiu que era hora de abrir sua própria empresa de terraplanagem e pavimentação. Se uniu a Rosaldo Malucelli, sobrinho da sua esposa, e abriram a SENPAR. Em 1971, estavam construindo um trecho na nova rodovia Castello Branco e precisavam de um terreno para guardar os equipamentos e usar como canteiro de obras. Surgiu a oportunidade de comprar uma fazenda, Fazenda São José.

Quando a obra acabou, um amigo sugeriu que transformassem a fazenda num condomínio fechado, o primeiro do Brasil. Jacob e Rosaldo foram para os Estados Unidos e Europa “ver o que era isso” nas palavras de Jacob. Na volta, construíram o primeiro condomínio fechado do Brasil, Terras de São José, e o resto é história. Numa conta feita por seu filho César, a SENPAR já urbanizou 28 milhões de metros quadrados.

Jacob Federmann se definia como desenvolvedor imobiliário. Era muito mais do que isso, era um Benemérito, título que não se compra nem se adquire, se ganha por aclamação popular. Aprendeu com seu pai que os judeus devem fazer “tzedakah”, ou seja, justiça, e ajudar quem precisa. Colaborava com creches, escolas, associações culturais e beneficentes de Itu e de São Paulo. Era difícil alguém pedir algo para o Jacob e não receber.

Dono de cinco empresas e dezenas de empreendimentos, uma vez perguntei a ele de qual delas se orgulhava mais.

– O que me deixa feliz mesmo – respondeu Jacob com um sorriso no rosto – é o número de postos de trabalho que criamos. Temos 400 funcionários no grupo e geramos emprego permanente para 20.000 pessoas.

Jacob Federmann é uma lição de vida. Perdemos um empreendedor, um benemerente e um sábio. Obrigado Jacob.

* É escritor, palestrante, curador do Memorial do Holocausto e membro da Academia Ituana de Letras.

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