Autora de curta fala sobre o cenário do cinema no Brasil e os desafios da área

Por André Roedel

Jessica Teleze durante gravações. Curta de sua autoria rodou o mundo (Foto: Divulgação)

Amanhã (09) acontece a cerimônia do Oscar, mais prestigiada premiação do cinema mundial. O prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas costuma ir para os mais badalados filmes do ano. Mas a produção cinematográfica vai muito além dos “Coringas” da vida. Existem obras de qualidade sendo feitas além da fronteira norte-americana.

Prova disso é o sul-coreano “Parasita”, uma das sensações da temporada de prêmios. Mas, indo mais além, há obras de qualidade filmadas no Brasil. O sucesso de “Bacurau” e “Democracia em Vertigem” (indicado ao Oscar de Melhor Documentário) comprova isso, apesar dos sucessivos ataques de parte da classe política para o cinema nacional.

A jovem cineasta Jessica Teleze, autora do curta-metragem “Campo Minado” – que trata sobre a homofobia no futebol e que teve cenas rodadas no estádio Novelli Júnior –, comenta isso. “O compromisso que o novo governo tem sobre o conservadorismo, o fim do Ministério da Cultura e as mudanças dos cabeças da ANCINE vêm deixando quem faz parte dessa indústria bem preocupado”, relata.

Para ela, a falta informação para quem está do “lado de fora” do mercado atrapalha ainda mais. “Um set de filmagem no mínimo são 12 horas de trabalho por dia, fazer filme é ficar de baixo de sol e chuva para conseguir o take perfeito”, conta a diretora, que teme pelo futuro.

“O Brasil virou popular pela resistência da nossa arte nesse momento e o nosso cinema tem sido visto. Parece lindo que tudo isso vem acontecendo, mas são filmes que já foram produzidos e finalizados. O medo vem para as próximas produções que estão sendo censuradas e se vamos conseguir produzir próximos filmes no Brasil”, afirma.

Mas nem tudo está perdido. “Em contrapartida eu nunca imaginaria que teria tanto festival de cinema voltado a curtas-metragens no Brasil e no mundo. Festivais de tantos lugares, pequenas e grandes cidades. No meio da Amazônia e do cerrado, nas grandes metrópoles, eu vi uma esperança nisso tudo”, explica.

Experiência
Teleze tem como grande experiência o curta-metragem “Campo Minado”, que foi filmado como trabalho de conclusão do curso de Cinema do Ceunsp de Salto, onde estudou. O filme, escrito e dirigido por ela, acompanha Baiano, um jogador de futebol nordestino que atua em um time do interior paulista. Ele recebe proposta para jogar na Europa, mas começa a correr risco de perdê-la após os colegas do time descobrirem que ele teve um caso com outro menino durante uma noite de festa.

Gravações do curta “Campo Minado” aconteceram no Novelli Júnior (Foto: Divulgação)

“Confesso que não entendia nada de futebol, mas algo me incomodava muito  no fanatismo violento dentro desse esporte”, conta. “A ideia veio de uma conversa entre amigos, onde um deles me dizia que queria ter uma quantidade de filhos que daria um time de futebol, e ai outro amigo respondeu ‘e se  vier gay?’ E ele em tréplica disse ‘por quê? Gay não joga bola?’. E daí me deu uma intriga enorme sobre eu nunca tinha escutado sobre jogadores famosos homossexuais”.

O curta-metragem rodou o Brasil, concorrendo inclusive em festivais em outros países, como Portugal, Inglaterra e Itália – onde chegou a concorrer com “Skin”, vencedor do Oscar de 2019. Falando em Oscar, Jessica Teleze falou com a reportagem sobre a categoria na edição 2020. “Acho muito legal o Oscar ter essa categoria, aliás os curtas-metragens giram muito, e é uma chance de dar uma olhada a filmes mais independentes, menores e vindos do mundo todo. Esse ano minha aposta vai para ‘Ikhwène’, da Tunísia. Mas acredito que a Academia pode dar a estatueta para ‘The Neighbors’ Window’”.

CONFIRA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:

Quais foram os desafios de se fazer o curta?
Acredito que o maior desafio foi convencer patrocinadores e apoiadores sobre o curta-metragem, especialmente para esse. Tinha que tomar cuidado se a pessoa gostasse muito de futebol e achasse que eu estava criticando o esporte como um todo. Minha pouca idade também me dificulta um pouco ainda para conquistar as coisas, sobre “como ser levada a sério”. Quando se faz curta-metragem de uma maneira independente é preciso muita coragem; poucas pessoas vão te esticar a mão e levar o seu trabalho a sério. Quando elas entendem que o curta não vai estrear no cinema, ou ter algum famoso atuando, seu trabalho perde valor e passa a não  significar muito. Os desafios foram enfrentar esses tipos de pessoas, levei muitos ‘nãos’ na cara, pensei em desistir muitas vezes, mas a gente tem que ir ate o fim no que acredita. E uma hora tudo começou a fluir de uma maneira rápida e quando vi já tínhamos filmado. O segredo é não parar de falar sobre o filme que você quer fazer, contar a historia dele, falar para todo mundo que você conhece, às vezes aquela pessoa pode te indicar alguém que alugue um drone por um preço bacana, ou uma tia que tem uma casa legal para você filmar de graça, uns amigos que vão ter um tempo livre e podem levar os equipamentos nos carros deles… Cinema independente funciona assim.

Como foi a recepção da crítica?
Foi boa! Maior do que eu imaginava. Alguns festivais evitaram, porque não queriam comprar a briga de falar mal de futebol dentro do Brasil. A recepção fora do país foi maior ainda, fiquei completamente feliz. Hoje, tem muita gente que me procura para falar sobre o curta-metragem, cineclubes e uma galera que quer abrir uma roda de conversa. O curta vem se espalhando aos poucos, o que está sendo ótimo porque ninguém já tinha um nome grande no mercado ou algo do tipo, então nós vemos que o filme esta crescendo por ele mesmo, pelo conjunto da obra. “Campo Minado” ainda tem mais um ano para correr em festivais, cada ano os júris focam em temas, então vamos aguardar.

Como foi falar de um tema tão tabu? Foi inspirado em algum relato real?
Confesso que não entendia nada de futebol,  mas algo me incomodava muito no fanatismo violento dentro desse esporte. O filme não foi inspirado em ninguém, quer dizer, provavelmente e infelizmente existem muitos ‘Baianos’ por aí sendo massacrados, mas a ideia veio de uma conversa entre amigos, onde um deles me dizia que queria ter uma quantidade de filhos que daria um time de futebol, e ai outro amigo respondeu “e se vier gay?” E ele em tréplica disse “por quê? Gay não joga bola?”. E daí me deu uma intriga enorme sobre eu nunca tinha escutado sobre jogadores famosos homossexuais. Não era possível que de tantos times no mundo não teria, ou levantaria uma bandeira, ou algum amigo e filho. Nada! E que em pleno ano que estamos isso ainda seja um tabu, pesquisei muito, madrugadas a dentro, e descobri histórias e sofrimentos horríveis de meninos homossexuais que são jogadores de futebol. Um amigo meu jogador também me contou algumas coisas, então resolvi fazer um filme sobre o tema e fui criando tudo em volta.

Qual o cenário atual do cinema independente no Brasil, principalmente com curtas?
Vem sendo difícil, nunca foi fácil, mas ultimamente está mais complicado.   Em contrapartida eu nunca imaginaria que teria tanto festival de cinema voltado a curtas-metragens no Brasil e no mundo. Festivais de tantos lugares, pequenas e grandes cidades. No meio da Amazônia e do cerrado, nas grandes metrópoles, eu vi uma esperança nisso tudo, são festivais que batalharam o ano inteiro para ter algum tipo de financiamento ou mesmo tiraram o dinheiro do próprio bolso para realizar. Fui em muitos deles ao longo do ano passado representar o “Campo Minado”, conheci muita gente que nem eu, que fez filme com pouco dinheiro e que demorou pra conseguir fazer, com isso senti que não estou sozinha, e que por aí vai ter sempre alguém lutando para fazer um filme. Acho que hoje, com a dificuldade que o cinema no Brasil vem passando, é realmente fazer cinema com as próprias mãos, explicar direito às pessoas o que vem acontecendo, e como as leis funcionam; vamos ter que resistir em muitos pontos.

Apesar das críticas e falta de investimento por parte do governo, o cinema nacional nunca foi tão premiado lá fora e comentado aqui dentro. O que você pensa sobre isso?
O compromisso que o novo governo tem sobre o conservadorismo, o fim do Ministério da Cultura e as mudanças dos cabeças da ANCINE vêm deixando a quem faz parte dessa indústria bem preocupado. Acredito que também falta informação ao povo que não faz parte da indústria artística, informações sobre as leis. Eu olho pro lado e tem alguém gritando “artista mama na teta do governo”, quando na verdade nenhuma lei voltada ao audiovisual funciona assim, e ninguém é ‘braço curto’ como falam. Um set de filmagem no mínimo são 12 horas de trabalho por dia, fazer filme é ficar debaixo de sol e chuva para conseguir o take perfeito,  para entreter a quem quiser, e estamos lá entretendo todo mundo, trabalhando que nem loucos para receber isso em troca. O audiovisual no Brasil gera mais dinheiro do que o turismo. Tudo vem se acumulando e virando notícia no mundo todo que está vendo o que o atual governo vem fazendo em relação ao cinema. Estamos sendo censurados, muitos filmes estão com problemas para serem distribuídos e as estruturas vêm sendo destruídas; Com isso, a indústria  cinematográfica de muitos países vem se sensibilizando pelo o que estamos passando, acredito que foi uma forma de apoio dos grandes festivais internacionais e investimentos sobre tudo isso. Hoje os festivais grandes são uma indústria paralela aos de produções cinematográficas. Eles geram dinheiro, empregos e têm uma influência enorme no mundo todo sobre o que eles querem que seja visto, criticar e apoiar, isso movimenta muitas produções pros próximos anos. O Brasil virou popular pela resistência da nossa arte nesse momento e o nosso cinema tem sido visto, parece lindo que tudo isso vem acontecendo, mas são filmes que já foram produzidos e finalizados. O medo vem para as próximas produções que estão sendo censuradas e se vamos conseguir produzir próximos filmes no Brasil. 

Você conferiu os indicados ao Oscar de Melhor Curta? Qual você acredita que leva este ano?
Conferi e assisti os disponíveis. Acho muito legal o Oscar ter essa categoria, aliás os curtas-metragens giram muito, e é uma chance de dar uma olhada a filmes mais independentes, menores e vindos do mundo todo. Esse ano minha aposta vai para “Ikhwène”, da Tunísia. Mas acredito que a Academia pode dar a estatueta para “The Neighbors’ Window”.

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