Enem: estudantes criticam manutenção do cronograma mesmo com a pandemia

Por André Roedel

O Enem impresso será aplicado nos dias 1º e 8 de novembro, e a versão digital, em 22 e 29 de novembro (Foto: Carlos Cecconello/Folhapress)

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) está com as inscrições abertas. As inscrições foram abertas na segunda-feira (11) e podem ser feitas no site enem.inep.gov.br. Os estudantes têm até 22 de maio para se inscrever.  O valor da taxa de inscrição permaneceu o mesmo do ano passado, R$ 85, que deverá ser pago até o dia 28 de maio.

A estrutura do Enem permanece com uma redação e 45 questões em cada prova das quatro áreas de conhecimento: linguagens, códigos e suas tecnologias; ciências humanas e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; e matemática e suas tecnologias. O Enem impresso será aplicado nos dias 1º e 8 de novembro, e a versão digital (novidade deste ano), em 22 e 29 de novembro.

Porém, a manutenção de praticamente o mesmo cronograma apesar da crise decorrente da pandemia do novo coronavírus gerou reclamações de estudantes, educadores e políticos. Isso porque, com o isolamento social imposto pela quarentena, os alunos não estão tendo aulas presenciais, o que dificulta o acesso ao estudo para a prova.

O estudante Helder dos Santos Pires, 17 anos, da E.E. “Professor Rogério Lázaro Toccheton”, relata essa dificuldade. “Ao início da quarentena não sabia que ficaria tão complicado os estudos em casa. Eu já estudava em casa mesmo antes de tudo acontecer, porém ainda tinha meus professores presentes para ajudar. Por mais que o estado tente ajudar com as aulas virtuais, não é a mesma coisa que na sala de aula”, explica.

A opinião é compartilhada pela estudante Maírys Quartaroli Viana, 17 anos, da Escola Sesi de Salto. “Está sendo difícil estudar durante a quarentena, mesmo possuindo aparelhos eletrônicos em casa. Muitas questões são necessárias para ter um bom rendimento, como um ambiente quieto e bem estruturado, horários definidos, saúde mental em dia, como estar controlando crises de ansiedade, e agora, uma boa internet, que não é meu caso, o que acaba tornando isso ainda mais estressante”, explica.

A falta de estrutura é um dos principais fatores das críticas à manutenção das datas do Enem por parte do Ministério da Educação. Muitos estudantes sequer possuem internet em suas residências para poderem acessar as aulas a distância oferecida pelos governos, quiçá livros com o conteúdo cobrado no exame. Nas redes sociais correm campanhas pedindo o adiamento da prova, assim como no Congresso já tramitam projetos de deputados da oposição nesse sentido. Em São Paulo, a codeputada estadual da Bancada Ativista, Monica Seixas (PSOL), apoia o adiamento.

“Aqui no estado de São Paulo, estamos dialogando com reitores e governador, e Doria começa a dizer em aparições públicas que avalia o adiamento dos vestibulares das universidades paulistas”, comenta a parlamentar. “Insistir no calendário da educação é aumentar a pressão sobre as famílias. É excluir os mais vulneráveis que provavelmente não prestarão a prova esse ano e vão para o vestibular do ano que vem em número dobrado, aumentando a concorrência e eliminando o acesso de toda uma geração”.

Opinião profissional
Bruno Albanese é professor formado em Letras pela Unicamp e doutorando em Linguística Aplicada pela mesma Universidade. Dá aulas de Literatura no Colégio Almeida Junior e é também corretor de redação. Ele acredita que a manutenção das datas do Enem é “extremamente problemática”. “Pensando em nível de Brasil, um país marcado por profundas desigualdades sociais, a manutenção da data de aplicação do Enem será mais uma forma de perpetuar essas desigualdades”.

“Desde o início do isolamento social e das aulas remotas, a maior parte dos alunos do ensino público não está tendo acesso à Educação. Portanto, eles estão em uma desvantagem ainda maior do que a usual na disputa por uma vaga em uma universidade pública”, comenta Albanese.

Mesmo entre alunos da rede privada, que possuem estrutura para o ensino remoto, o educador percebe que o isolamento social pode ter reflexos na prova. “Toda essa situação de instabilidade causada pela pandemia também os afeta. Sinto que eles estão mais ansiosos, muito preocupados com o futuro em uma fase que normalmente já é permeada por muita pressão. Qualquer educador sabe que pressão, preocupação e ansiedade são sentimentos que influenciam muito o processo de aprendizagem”.

Sobre a novidade deste ano, o Enem digital, o professor acredita que é uma “ação despropositada”. “Ainda mais pensando que os alunos que fizerem o Enem digital e o regular estarão disputando pelas mesmas vagas, mas fazendo avaliações diferentes. Por mais que a natureza do exame se mantenha, nunca uma prova consegue ter o mesmo nível de exigência. Portanto, a concorrência pode ficar injusta. Além disso, as datas de aplicação do Enem digital coincidem com a de outros vestibulares importantes do país, como a Fuvest da USP e o da Comvest da Unicamp”.

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