Especial: Carta de Natal

Querido Papai Noel,

Acho que não preciso dizer o meu nome, porque me disseram que o senhor sabe de tudo. Então, certamente sabe como me chamo. Tenho dez anos (sim, estou contando minha idade porque, aos dez anos, eu não acredito mais no senhor, sei que tudo é uma lenda). Contudo, tudo o que peço nesta carta também pedi a Deus – Nele sim, eu acredito, apesar de não poder vê-lo. Então, já que escrevi para um Deus que não vejo, por que não escrever para o senhor, que não existe?  Me parece lógico.

Queria contar que, neste ano, me comportei mal. E, por isso, já gostaria de pedir perdão ao senhor e a Deus. Tentei ser o melhor filho possível, mas falhei. Ficar em casa, tendo aulas online, escutando a professora e mais 20 colegas falando ao mesmo tempo, não é fácil. É horrível!

Outra coisa que odiei neste ano foi ficar em casa. Não saí para jogar bola na rua de trás, tampouco pude ir à casa de meus amigos. Mesmo quando eu sabia que minha turma estava se reunindo, minha mãe não me deixava ir. Ela dizia que minha avó, que mora com a gente, tem câncer, e é do grupo de risco do coronavírus. O senhor sabe do Covid, não sabe? Deduzo que, se o senhor fosse real, teria que entregar os presentes de máscara – e ela certamente seria vermelha!

Ficar em casa com meus dois irmãos mais novos é terrível. Perco a paciência e brigamos. Daí de eu dizer no início da carta que não me comportei bem – é impossível ser um bom menino quando se tem dois irmãos como os meus e, ainda, tem que ficar trancado em casa!

Contudo, apesar de minhas estripulias, há algumas coisas que gostaria de pedir. Como não atingi a meta do “bom menino”, talvez eu não ganhe presente. Mas o que peço não são presentes, coisas; meus pedidos são mais desejos. Disse isso a Deus e acho que Ele entendeu – então, acredito que o senhor me entenderá também.

Em primeiro lugar gostaria de desejar que toda minha família tivesse saúde. Minha mãe, minha avó e meus irmãos. Brigamos, mas eu os amo (só não posso dizer isso em voz alta!).

Em segundo lugar, queria pedir que o senhor ajudasse Deus na missão de distribuir um pouco mais de carinho e solidariedade às pessoas do mundo. Quando comecei a ouvir sobre a pandemia, primeiramente eu quis saber o que significava “pandemia”; em seguida, passei a escutar bastante sobre solidariedade e amizade. Porém, tudo o que vejo são as pessoas brigarem. Não tenho Facebook, mas minha mãe vira mexe diz que as pessoas são terríveis nas mídias sociais. Ela usa o termo “ódio”, mas não gosta que eu repita. Então, o que peço é que as pessoas sejam melhores!

Por fim, em terceiro lugar, queria desejar saúde. Sim, porque se as pessoas estão ficando doentes e morrendo, acho que o correto é pedir para que todos tenham saúde, não é? Morrer deve ser muito ruim! Assim, se todos tiverem saúde, talvez menos pessoas morram – e menos gente sofra!

Papai Noel, é isso. Tudo o que está na carta, pedi em oração a Deus. Claro, não espero que o senhor passe por nossa casa num trenó puxado por renas de narizes vermelhos. Porém, é tão bom escrever aquilo que desejamos que, às vezes, tenho vontade de que o senhor exista. Afinal, dois (o senhor e Deus) é melhor do que um!

Encerrei minha oração agradecendo a Deus pela vida e saúde de minha família. Mas não sei como terminar uma carta ao Papai Noel. Desejo Feliz Natal? Bom, o senhor é o motivo da felicidade do Natal para  muitos, então sei se é ideal – desejar feliz Natal para quem é sinônimo de felicidade. De todo modo, desejo que o senhor esteja bem.

Minha avó fala que o sentido do Natal é o nascimento de Cristo – mas ele não nasceu no dia 25 de dezembro! Bom, ok. O senhor também não existe, então, as coisas ficam empatadas. Sendo assim, é melhor desejar Parabéns, como se faz no aniversário de alguém.

Que se cuide, que olhe por nós aqui. Que esse vírus vá embora, e que tudo volte ao normal.

Feliz Natal! Parabéns!


Paulo Stucchi é jornalista, psicanalista e autor com quatro romances publicados. É membro do Academia Ituana de Letras e foi finalista do Prêmio Jabuti neste ano, com o livro “A Filha do Reich”. A convite do JP, ele escreveu o texto acima para celebrar o Natal.

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