George Floyd: para além de uma única morte, a necessidade da garantia de vida em meio ao caos

Por Michelle Duarte e Ezequiel Franco *

Para entendermos o que tem acontecido nos EUA e os movimentos que estão tomando as ruas do Brasil, mesmo durante a pandemia, precisamos entender que tanto no Brasil quanto nos EUA a população negra vem há anos sofrendo com o descaso, a falta de políticas públicas e a crescente naturalização do extermínio da população negra. Isso acontece por vários fatores, um deles é a criminalização da pobreza.

Criminalizar quem nasce na comunidade, aceitar e legitimar as ações de extermínio do Estado dentro desses espaços, tirar a perspectiva de vida e dar aquela expectativa de morte. O problema não é social, e sim racial.

Durante a pandemia temos visto ainda mais ações da polícia em cidades, temos visto ainda mais a criminalização da população negra, quando a mesma não tem acesso à saúde, saneamento de qualidade. Apesar de não concordamos muito com as comparações, é necessário linkar que tanto a população negra do Brasil quanto dos EUA estão ligadas quando se fala de morte dos seus.

O que temos visto nos EUA, que começou com a morte de George Floyd por asfixia, é reflexo de um governo que começou em 2016 com a eleição de Donald Trump, e seu discurso supremacista branco. Todas essas pessoas que o apoiaram ganharam aval para fazer e falar o que bem entendessem. Mas, o que nenhum governo espera e pode premeditar é a existência de um vírus que evidencie ainda mais as desigualdades de uma parcela da população.

A morte de George foi o estopim, a gota d’água para os que sofrem diariamente por verem seus amigos e familiares morrendo pelo descaso do Estado. Quando a população negra nos EUA decide sair às ruas, em meio a uma pandemia, é pra lutar por uma nova realidade e pelo direito à vida. Um Estado democrático deve zelar pelo direito à vida dos seus cidadãos e cidadãs.

Manifestante segura cartaz com rosto de George Floyd durante protesto em Nova York
(Foto: REUTERS/Caitlin Ochs)

Por isso, qualquer tentativa de ruptura com a institucionalidade democrática deve ser fortemente combatida, pois ela infringe o direito à vida da população como um todo, em especial os segmentos em maior situação de desigualdade e vulnerabilidade.

No Brasil, ano apos ano, é possível ver a naturalização do racismo, o que também ganhou uma proporção maior com o avanço das eleições de 2018 e a criminalização do movimento negro pelas pessoas que hoje ocupam as cadeiras do governo federal. E porque o racismo não comove? No livro “O anti-racismo no Brasil”, Kabengele Munanga escreve que “o racismo brasileiro na sua estratégia age sem demonstrar a sua rigidez, não aparece à luz; é ambíguo, meloso, pegajoso, mas altamente eficiente em seus objetivos” (p. 215).

Na medida em que os nossos olhos se desfocam do racismo como a macrocausa de uma grande maioria dos nossos problemas sociais, as soluções apresentadas nunca atingem, de fato, o problema real.

Importante compreender que quando se nega o espaço, o trabalho, a saúde, a terra, o alimento, a educação nega-se o direito à vida, e é nesse sentido que durante a maior pandemia vivida pelo país esteja acontecendo uma movimentação para combater o que aqui também nos parece estar chegando na gota d’água. A violência é a negação do direito à vida! O racismo é violento e produz violência. #vidasnegrasimportam

* Integrantes da UNEI (União Negra de Itu)