Janaína Paschoal: ‘atentado não foi uma brincadeirinha, ele mirou para matar’

Janaína concedeu entrevista na Praça do Bom Jesus/ Foto – André Roedel

O Periscópio entrevistou no último sábado (08) a advogada e professora de Direito da USP Janaína Paschoal, candidata a deputada estadual pelo PSL. Uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), junto com Miguel Reale Júnior e Hélio Bicudo, ela falou principalmente sobre sua candidatura e o ataque sofrido pelo presidenciável de seu partido, Jair Bolsonaro, na última quinta-feira (06) em Juiz de Fora/MG.

Janaína começou falando que nunca esteve em seus planos se candidatar, porém, dias antes do prazo final para os interessados em se candidatar realizarem a filiação partidária, em abril, diversas legendas a procuraram. “Até partidos de esquerda me convidaram para me filiar”, disse. Abaixo, confira a entrevista na íntegra:

JP: Como surgiu essa vontade de se candidatar?
Janaína: É tão interessante, porque nunca esteve nos meus planos me candidatar. A questão eleitoral funciona muito com prazos. E as pessoas começaram a falar “Janaína, sabia que até 7 de abril você tem que se filiar a algum partido se você quiser sair para alguma coisa?”. E dez dias antes desse 7 de abril vários partidos começaram a me procurar, querendo se apresentar, me convidar. Até partidos de esquerda me convidaram para me filiar. Não tava entendendo nada! Eu disse assim: “mas a gente pensa tudo diferente, como que o senhor quer que eu me filie?”. “Não, mas a senhora virou uma referência”. Aí é que eu fui entender que, por exemplo, o fundo eleitoral e o tempo de TV tem muito a ver com o número de deputados federais. Também este ano os partidos pequenos têm que fazer muitos deputados federais (por causa da cláusula de barreira). Então todo mundo queria que eu saísse para deputada federal. E já naquele momento muitos queria que eu saísse para senadora. E eu expliquei que a princípio eu não queria sair candidata, fazer política partidária. O próprio Bolsonaro me ligou e disse: “faça assim. Tem um prazo. Filie-se. Depois você pensa com calma”. Chegou o dia 7 de abril, que era o último dia, e me filiei, acabei me filiando ao PSL, que é o partido dele. Mas me filiei para ter tempo para pensar. Daí veio primeiro aquele convite para ser governadora. Depois para sair de vice. Quando chegou mais para o final, eu disse: “quer saber, não vou sair para nada”. Mas ele mesmo me ligou de novo, o Bolsonaro, também ligou o Major Olímpio (candidato ao senado pelo PSL), e outras pessoas disseram: ‘olha, você tem que ocupar’. E é o que eu ensino para os meus alunos. A gente tem que ocupar os espaços. Porque se a gente não ocupa, outra pessoa vem e ocupa. E muitas vezes a pessoa que vem ocupar não têm boas intenções. Foram muitos conselhos que fui recebendo. Também eu senti que a pressão dessas pessoas que querem o poder a todo custo, para se beneficiarem do poder, foi aumentando contra mim, por meio de ameaças, intimidações e perseguições de várias modalidades. Então eu falei: “talvez seja um sinal de Deus que eu tenho que dar uma mudada”. Foi um processo; eu não disse “eu quero ser candidata”. Foi um processo de convencimento de mim mesma.

JP: Por que a opção pelo partido do Bolsonaro?
Janaína: Muitos (partidos) me convidaram, até aproveito essa oportunidade para fazer um agradecimento a todos que me convidaram. Fiquei muito honrada. Mas eu procurei alguns critérios. Primeiro: eu não queria um partido socialista, nem comunista. Porque eu acho que o socialismo e o comunismo eles têm uma vertente muito forte de dominação da cabeça do outro. Ou você concorda com tudo ou você é inimigo. Eu não gosto disso. E uma vez feita essa primeira varredura, eu queria um partido que não estivesse envolvido em nenhum escândalo de corrupção. E o PSL, até por, vamos dizer assim, estar sendo reformado, ressuscitado, ele não está. Com relação ao candidato Bolsonaro, eu conversei com muita gente que o conhece, muitas pessoas das várias polícias, e as referências foram todas positivas, de que ele é honesto mesmo. Conversei com empresário que quis dar dinheiro para ele e ele não aceitou. Por isso que eu decidi entrar no PSL.

JP: Como tem sido a recepção dos eleitores com a sua candidatura, principalmente porque a senhora ficou marcada por conta do impeachment?
Janaína: Muito mais positiva do que imaginava. Eu tinha um pouco de preocupação que as pessoas dissessem “está vendo, ela fez tudo isso para sair candidata”. E está sendo o contrário. Quando eu dizia que não ia sair, as pessoas nas ruas pediam para eu sair. E as pessoas têm me agradecido por eu ter me candidatado. Não sei nem se eu serei eleita, mas esse sentimento é legal. Me mostra que as pessoas querem que quem pensa diferente, age diferente, também ocupe lugares públicos. Tem sido boa a receptividade.

JP: A gente vive um momento conturbado politicamente, até por conta do atentado que aconteceu com Bolsonaro e extremos de ambos os lados. Como a senhora está analisando esse cenário político?
Janaína: É claro que a gente tem que tranquilizar a população. Eu peço para as pessoas terem tranquilidade, que a polícia vai investigar, que os responsáveis serão punidos e que a gente não quer caça as bruxas. A gente não quer que os seguidores do Bolsonaro de repente se emocionem e saiam por aí querendo fazer justiça. Não é isso que a gente quer. Agora, se eu disser para você que eu não fiquei abalada, e não foi só pela pessoa dele, mas abalada pela gravidade e de ver que essas pessoas que estavam no poder não estão admitindo perder o poder pela lei. Por exemplo, o processo de impeachment que foi um processo constitucional, a Lava Jato que é uma operação absolutamente legal e que está mostrando quem tem que cair. E eles estão perdendo a cabeça porque estão vendo que não vão conseguir se manter no poder. E aí eles tentam de tudo. E quando não conseguem, eles vêm para um ato de violência. Porque aquilo ali foi para matar. Não foi uma brincadeirinha. Ele mirou em área vital. A gente que estuda Direito chama de área do ‘garrafão’. Quando alguém atinge uma pessoa na área do ‘garrafão’, que é a cabeça e o tronco, é um sinal de que a ideia é de matar. Aquilo me preocupou. Acho que é uma maneira de todos perceberem como a gente está lidando com gente ruim, com gente que quer se manter a todo custo. E acho que é um estímulo para todos aqueles que acreditam que só meia dúzia falando vai ser suficiente começarem a se manifestar. O Brasil chegou num ponto de infiltração criminosa em vários campos que, se as pessoas que ficam caladas apesar de não concordar não comprarem essa briga, quem está falando não vai aguentar sozinho. Não dá para aguentar. É muito pesada a pressão. Então chegou um momento de as pessoas irem à frente, exigirem mesmo, se manifestarem nos seus ambientes de trabalho.

JP: Depois do atentado, quais têm sido as precauções dos candidatos do partido?
Janaína: A bem da verdade, ainda não houve uma reorganização nesse sentido. Porque foi antes de ontem (06), ontem (07) a gente passou o dia no hospital. Então está todo mundo meio que num estado de choque. Alguns cancelaram tudo que tinham planejado, outros mantiveram. Ontem eu não fiz nada de campanha, fiquei só no hospital, mas hoje (08) eu já tinha marcado há muito tempo aqui em Itu. Vim, e acho que fiz bem, porque as pessoas querem abraçar, querem entender o que está acontecendo. Então não houve uma reorganização. Me disseram que vai haver uma reunião, mas ainda não aconteceu.

JP: No hospital, você teve acesso ao Bolsonaro?
Janaína: Ninguém teve. Só tinha um filho dele lá, o pessoal restringiu muito por causa do problema de infecção. Como houve essa lesão, que pegou bem no intestino, teve até que fazer uma cirurgia delicada, eles estão tentando preservar esses contatos porque a gente só de sair para a rua já pode pegar alguma coisa. Então todo mundo ficou lá, mas ninguém teve acesso a ele.

JP: E como foi a manhã de campanha aqui em Itu?
Janaína: Foi ótima. Dr. Rene (Liberatore), todos os colegas me receberam muito bem, parentes, amigos. As pessoas nas ruas também foram muito amorosas. É claro que também em Itu, não é só, tem um grande grupo de pessoas que está muito descrente. Não é que a pessoa não quer pegar o (santinho com o) número porque é meu, ou porque é do partido tal. Ouço muito isso: “não confio em político nenhum, não vou votar, não confio em ninguém”. Em Itu, foi menos. A receptividade foi maior. Mas eu tenho ouvido muito isso em várias cidades, mesmo na capital. E eu tenho um pouco de medo disso, porque as pessoas que estão tristes e indignadas estão por serem corretas. Se elas não votarem, se elas não se manifestarem, aquelas que estão contentes com tudo que está aí vão votar. E aí a coisa se perpetua.

JP: O candidato Bolsonaro tem tido algumas frases polêmicas, alguns embates ao longo desse tempo, e acumulou uma rejeição grande de acordo as pesquisas recentes. Como tem sido para enfrentar uma resistência nas ruas?
Janaína: Olha, eu sou uma pessoa muito verdadeira. Tem coisa que eu concordo com ele, tem coisa que eu não concordo. Eu falo isso na cara dele. E o que eu reparo é que ele é uma pessoa muito transparente. Ele fala muito o que ele pensa, mas ele fala de uma maneira um pouco bruta, às vezes. Então eu acho que ele pode melhorar nisso. Talvez explicar melhor os pensamentos dele, sem ter aquela maneira dura. Agora, tem muita gente que diz para mim que não concorda comigo. Acha que ele tem que ser do jeito que ele é. Então eu penso assim: entre alguém muito polido, mas que é falso, eu prefiro ficar com alguém que às vezes é grosseiro – e é mesmo –, mas que é verdadeiro.

JP: A senhora acredita que, se eleito, Bolsonaro vai adotar uma postura mais pacificadora?
Janaína: Eu acho que todo estadista, todo líder de governo, precisa. Por isso que eu gostei muito da entrevista do General Mourão (candidato a vice de Bolsonaro, que concedeu entrevista recente à Globo News). Ele está dando o tom que eu acredito que tem que ser dado. E quando você tem pessoas ao seu lado que dão esse tom de moderação, você acaba também sendo contagiado no bom sentido por esse tom de moderação. Ele (Bolsonaro) é uma pessoa boa. O contato que eu tive com ele me mostrou que ele é uma pessoa boa, é uma pessoa bem-intencionada. E ele tem aquele jeitão. Eu acho que está fácil da gente cuidar. O ruim é quando se tem uma pessoa disfarçada, mas que é ruim. Não é o caso.

JP: Por fim, deixe uma mensagem para Itu.
Janaína: A mensagem para Itu, que é uma mensagem para todo brasileiro, é de que a gente vive um momento delicado, o processo de impeachment começou o que tenho chamado de um processo de depuração, de limpeza mesmo, que é necessário. Essa eleição não vai resolver todos os nossos problemas. O candidato que disse que tudo será solucionado se ele for eleito, ele está mentindo. Então a gente tem que ter bastante claro que são vários passos de um processo de depuração. (As eleições de) 2018 é um desses passos. A gente tem que colocar no Senado, na Câmara Federal, na Assembleia Legislativa pessoas que não estejam envolvidas com crimes, pessoas que estejam fazendo campanhas limpas, pessoas que não tenham apoiado esse povo todo que está aí sugando a gente. Dá trabalho votar, pesquisar, investigar. Não ouvir só o que o cidadão está falando agora que é campanha, mas o que ele falou antes, defendeu, escreveu. O pior dos nossos erros é a omissão. Melhor votar e correr o risco de se arrepender do que deixar os outros decidirem. O processo de impeachment eu acho que foi muito importante não só por ter conseguido afastar a presidente – ela merecia ser afastada –, mas porque abriu a porta da conscientização. Muita gente me escreve: “olha, depois que eu ouvi a senhora falar eu comecei a presta atenção, estou envolvido na campanha da minha cidade”. Então o que eu digo para Itu é o que eu digo para o Brasil: esse País é nosso. Ele é lindo, ele é grande, é promissor. Só depende de a gente abraçar esse País e tomar conta dele para que os maus não liderem. Então a minha mensagem para Itu é um muito obrigado pelas boas vibrações e pelas orações que me deram muita força. Eu acho que a minha qualidade técnica e intelectual me ajudou muito nisso tudo, mas a minha fé e a força do povo brasileiro, inclusive o povo de Itu que me passou essa boa energia hoje, ela foi determinante.

5 comentários em “Janaína Paschoal: ‘atentado não foi uma brincadeirinha, ele mirou para matar’

  • 14 de setembro de 2018 em 11:46
    Permalink

    Discordo de algumas ideias dela , mas ela será no bom sentido ” uma pedra no sapato ” do futuro Governador , seja quem for ele pelo resultado das urnas .

    Resposta
  • 14 de setembro de 2018 em 11:49
    Permalink

    Discordo de algumas ideias dela , mas ela será no bom sentido , uma pedra no sapato do futuro Governador , seja quem for ele pelo resultado das urnas . Creio que não abrirá mão por nada de exercer seu poder de controle e fiscalização , e possui capacidade intelectual para tal .

    Resposta
  • 14 de setembro de 2018 em 13:46
    Permalink

    Força Sra. Janaina Pascoal!
    A democracia sempre sera vitoriosa,
    A corrupção vai ser derrotada por pessoas como a Senhora.
    Boa sorte e sabedoria.

    Resposta
  • 14 de setembro de 2018 em 13:47
    Permalink

    Força Sra. Janaina Paschoal!
    A democracia sempre sera vitoriosa,
    A corrupção vai ser derrotada por pessoas como a Senhora.
    Boa sorte e sabedoria.

    Resposta
  • 14 de setembro de 2018 em 18:44
    Permalink

    Após as eleições de uma coisa vamos ter certeza no Brasil: O número médio de idiotas ( pessoas que falam de política superficialmente ), ao se apurar o quantitativo de votos no candidato dela. Onde já se viu, mulher apoiar um candidato que se quer reconhece o empoderamento da mulher, a necessidade da mulher brasileira, de ter a sua renda, de não depender do marido.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *