PERISCÓPIO ENTREVISTA: Marcio Pitliuk: “data serve para a gente educar os jovens a serem tolerantes”

No início deste mês, o Periscópio recebeu – a convite do empresário Gabriel Carvalho – a visita do publicitário, escritor, diretor de cinema e palestrante Marcio Pitliuk, um dos maiores especialistas brasileiros do Holocausto – o genocídio de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Pitliuk, que é judeu, já realizou dois longas-metragens, três curtas, 13 livros e dezenas de palestras sobre a temática.

Agora residindo em Itu após anos atuando na capital paulista, ele conversou com a reportagem sobre o tema e sobre a recente aprovação do projeto de lei de autoria do vereador Ricardo Giordani (PTB), que institui no calendário oficial de eventos da cidade o Dia da Lembrança, entre outros assuntos relacionados. Pitliuk deixa seu e-mail para quem quiser solicitar palestras: pit@pitcom.com.br. Abaixo, confira os principais trechos da conversa – que pode ser lida na íntegra no site do JP:

 

JP: Como o senhor se aproximou desse tema tão amplo como o Holocausto e como é lidar com ele?

Existe um evento mundial, chamado “Marcha da Vida”, que leva umas 20 mil pessoas por ano para conhecerem os campos de concentração na Polônia. Um dia eu pensei: ‘já que eu sou publicitário, sei fazer filme, sei escrever, em vez de eu fazer como todo mundo, eu vou documentar. Aí eu descobri que ninguém tinha feito isso no mundo. Fui atrás de patrocinadores, decidi fazer um longa-metragem, fazer um livro de fotos e transmitir pelo rádio no ano seguinte. Quando comecei a fazer esse trabalho, comecei a conhecer sobreviventes, a estudar o assunto, ler muito, visitar museus no mundo todo. Comecei a estudar muito o assunto e fiquei fascinado. Quando lancei o livro e o filme, comecei a fazer palestras e levar sobreviventes do Holocausto. Aí eu já estava cansado da propaganda. O único benefício é ganhar dinheiro, não é uma coisa que dá muitos orgulhos. Então eu decidi que ia dedicar a minha vida a algo mais nobre, vamos chamar a assim. Vendi a agência e comecei a focar nisso. O Holocausto e a Segunda Guerra Mundial foram os temas que mais geraram livros e filmes no mundo. Então é um tema muito amplo. Por exemplo, nas minhas palestras eu posso falar sobre ética usando a Alemanha nazista como o exemplo – na verdade é o não-exemplo. É muito rico o assunto; para mim virou uma missão.

 

JP: Em meio a tantos livros sobre o tema, como abordá-lo de forma diferente?

Eu vou lançar um livro, que já acabei de escrever, que é um romance que é um pouco disso que você está falando. Fala-se muito pouco sobre a participação das mulheres no Holocausto. A gente sabe dos comandantes dos campos, dos carrascos, da cúpula do governo alemão e é raro falar das mulheres. E elas tiveram uma participação muito ativa. Elas já chegaram a ser comandantes. As mulheres colaboravam sabendo o que os maridos faziam. Quando o cara chegava em casa com casacos de pele que roubavam das judias para dar à esposa, ela perguntava de onde apareceu. O mesmo com as joias. Ela não podia negar que sabia. Então eu acabei de escrever um livro em que eu retrato uma personagem que é uma alpinista social que cresce na Alemanha sempre se beneficiando do Holocausto. Então esse é um jeito novo, pouco falado das mulheres.

 

JP: Para o leitor que às vezes não conhece o termo, o que foi o Holocausto de uma maneira resumida?

Resumida é difícil, mas usando um termo bastante atual, o Holocausto foi muito o “nós contra eles”. Foi o que os nazistas usaram na Segunda Guerra Mundial. Quando a Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial e estava arrasada moralmente e financeiramente, surgiu um salvador da pátria, que era Adolf Hitler, prometendo que o povo ia ficar bem, ia alimentar todo mundo, o país ia melhorar. Ele era um louco, megalomaníaco, com um ego lá em cima que foi convencendo as pessoas a apoiá-lo incondicionalmente. E ele usou esse discurso do “nós contra eles”. “Nós” alemães e “eles”, judeus e comunistas. E com isso ele cresceu, fez uma lavagem cerebral no povo e convenceu que a Alemanha era um povo superior e os outros povos eram inferiores, estavam aqui para servir os alemães, e os ‘sub-humanos’, que eram os judeus e ciganos, tinham que ser exterminados. Então fez aquela máquina de matar. Quando ele começou o discurso, nem ele sabia o que ia acontecer. Quando eles começaram a matar milhares era fácil. Depois, dezenas de milhares já começou a ficar complicado matar e depois se livrar dos corpos era mais complicado ainda. Precisava de uma estrutura do país para isso, que envolveu bancos, envolveu empresas de transporte, envolveu não só a sociedade militar, mas a sociedade civil.

 

JP: Muita gente então lucrou com a morte?

Muita gente lucrou. As empresas vendiam o gás venenoso. Outras empresas vendiam arame farpado para os campos de concentração, outras empresas compravam os cabelos dos judeus para fazer forro de submarino e tanque de guerra. Era uma máquina de fazer dinheiro. Eles roubavam tudo dos judeus e vendiam para os alemães.

 

JP: É possível, guardadas as devidas proporções, traçar um paralelo do Holocausto com a escravidão?

Não. A escravidão ela usa a mão de obra sem pagamento, mas o escravo é uma mercadoria que tem que sobreviver. Pelo menos durante 20, 30 anos o escravo tem que se pagar. Então ele é alimentado, ele dorme, ele sobrevive como um animal de carga, mas ele sobrevive. Os escravos no Holocausto não duravam um ano. Porque estava sempre chegando mais e eles queriam matar por exaustão também. Eles davam pouca comida. Muitas fábricas, como BMW e Mercedes Benz, reclamavam que os escravos estavam muito fracos, mas não se preocupavam em alimentar. Isso era obrigação do campo de concentração. O senhor de escravo alimentava ele. Podia até castigar, mas não até a morte. No caso nazista era mais uma forma de extermínio, pela exaustão.

 

JP: E na questão da reparação? Hoje a Alemanha é um país consciente dos atos que ocorreram na Guerra e revê muita coisa do que foi feito.

Reparação teve. Todo mundo que provou que sofreu com o Holocausto, sobreviveu e sofreu, tem uma reparação de guerra. Tem vários níveis: se ela teve que fugir da Alemanha por causa da perseguição nazista, ela tem um tipo de reparação; se ela ficou presa no gueto, é outra reparação; se ela ficou como escrava, outra. Tem vários níveis. Mas a maior pensão que existe é de 800, 900 euros por mês. Quer dizer, um cara que com 15 anos perdeu os pais, família, não pode estudar, sofreu o que sofreu para ganhar 800 euros não é nada. Foi um gesto da Alemanha reconhecer um erro.

 

JP: Existem muitas pessoas com a profusão de informações na internet que negam o Holocausto. Qual a percepção do senhor sobre isso?

As pessoas que negam o Holocausto elas negam sabendo que ele existiu. Por que eu falo isso? Porque para negar eles usam fatos históricos para mudar o sentido. Existira os fornos crematórios. ‘Sim, mas é que morria muita gente, então tinham que cremar’. Bom, não precisava de ter 20 num campo. O Zyklon B, que era para matar pessoas, eles não podem falar que era para matar insetos. A fórmula original era para matar insetos, mas ela foi refeita pela Bayer para matar pessoas. Os negacionistas usam fatos históricos para mostrar o contrário, porque não dá para negar, tem sobreviventes, testemunhas oculares. Então são pessoas que querem ganhar dinheiro em cima disso, querem aparecer, antissemitas (quem tem preconceito com judeu) com certeza que veem nisso uma forma de ganhar dinheiro. Faz palestra, livro. Gente sem caráter, sem ética.

 

JP: Como são os encontros com os sobreviventes? É uma emoção a cada momento?

Sim. Eu faço palestra em escolas, universidades, empresas… Onde convidam a gente. E eu conheço vários sobreviventes. Então, dependendo do tipo da palestra, eu convido um dos sobreviventes para participar. E eles não são profissionais de palestras, são pessoas normais que pararam de estudar cedo. Quando acabou a Guerra eles tinham em média 20, 21 anos. Poucos tiveram a oportunidade de fazer faculdade depois. Mas o relato deles é tão emocionante, tão vivo, tão impactante que emociona muito a plateia. E existem perguntas que todas as vezes a plateia faz. Tem uma que não tem quem não faça, 200 palestras e eu ouvi 200 vezes essa pergunta, que é: “depois do que aconteceu, você acredita em Deus?”. Uns acreditam, outros não acreditam. As pessoas ficam encantadas, porque são pessoas de idade. A Guerra acabou há 75 anos. Para ela lembrar, tinha que ter no mínimo 10 anos. Então já tem 85 anos de idade. São velhinhos, que falam bem e as pessoas ficam sensibilizadas, as pessoas ficam emocionadas sempre.

 

JP: Qual conteúdo o senhor leva nessas palestras? É mais histórico?

Em escola de segundo grau, é sempre uma palestra histórica. Explico como o Holocausto foi planejado, organizado e realizado. Quando é uma empresa, às vezes eu falo sobre superação, porque os caras querem superar as dificuldades. Motivacional. Não tem motivação maior que um sobrevivente do holocausto. Tem alguns, como o Samuel Klein, dono das Casas Bahia, é um sobrevivente. Um cara que saiu daquela situação e virou um dos maiores empresários do Brasil. O Dov Orni, que é dono do shopping aqui, é um sobrevivente. Tem uma história incrível. Ele não gosta de contar, mas tem. No Rotary eu fiz uma palestra sobre ética. Atualmente no Brasil, como ética está em baixa, eu faço essa palestra mostrando como o país inteiro perdeu a ética.

 

JP: Essa eleição no Brasil foi muito conturbada, muita gente fazendo paralelos até com a Alemanha nazista, principalmente com o então candidato Jair Bolsonaro. O senhor percebe paralelos da situação nossa com o que foi naquela época?

Não. Isso é uma campanha totalmente difamatória. Bolsonaro não tem nada de nazista. E o Brasil tem uma democracia forte e sólida. Jamais vai acontecer isso (nazismo) aqui. Não pode se dizer jamais, mas não é na atual situação que isso pode acontecer. Bolsonaro não vai começar no dia 2 de janeiro a matar gay, negro, judeu, botar as mulheres em casa e proibir trabalhar. Isso é oposição mal feita, é mentira. Não dá para comparar o Holocausto com nada. Holocausto é Holocausto. Genocídios que tiveram no final do século XX na Sérvia e na Croácia também eram diferente. Ali os sérvios entravam na Croácia, matavam os homens adultos, estupravam as mulheres e, às vezes, uma criança era morta, mas não iam lá e montavam uma máquina de extermínio para acabar com os croatas. Não era assim. Quando os croatas iam para a Sérvia, a mesma coisa. O Holocausto era assim: matavam todos os homens, todas as mulheres, todas as crianças. Não importava se tinha um ano de idade, um mês de idade, tem que matar porque é judeu.

 

JP: Hoje o Brasil tem quantos sobreviventes do Holocausto? Há uma estimativa?

Infelizmente essa estimativa nunca foi feita. A gente calcula que vieram muitas centenas para o Brasil depois da Guerra. Cada vez eu descubro mais um sobrevivente. Estou lançando um livro, que são retratos de sobreviventes e umas histórias curtas deles. São 18 sobreviventes que a gente entrevistou. Aí quando eu publico no Facebook que eu vou lançar o livro, alguém fala ‘minha mãe é sobrevivente, meu pai é sobrevivente’. Está sempre aparecendo. Porque, no mundo, a gente calcula que tiveram 500 mil sobreviventes. Na contabilidade nazista, existiam 11 milhões de judeus para serem mortos na Europa. Seis milhões morreram. E 500 mil chegaram a sofrer por causa disso. Muitos não estavam em zona de conflito e não foram perseguidos, mas dos que foram para o gueto, tiveram que abandonar suas casas ou escapavam dos campos, 500 mil é um número razoável. Na Polônia, que tinha 3,3 milhões, sobraram 300 mil. Nos outros países, mais uns 200 mil. Foi 5% da Lituânia, 40% da Hungria e por aí vai.

 

JP: Muita gente faz especulações de como seria o mundo sem a Segunda Guerra e, consequentemente, sem o Holocausto. Como o senhor acha que seria?

Eu nunca parei para pensar isso.

 

JP: Recentemente foi aprovado na Câmara de Itu um projeto que institui o Dia Municipal da Lembrança, de autoria do vereador Ricardo Giordani. Eu gostaria que o senhor comentasse a importância de um projeto desse.

Foi curioso isso, porque uns dias antes o Gabriel (Carvalho) me levou a uma reunião com o prefeito Guilherme (Gazzola) para um projeto que estamos desenvolvendo e eu dei um livro “Marcha da Vida” para ele. Passou umas duas ou três semanas e o Ricardo me ligou e falou ‘recebi um livro do prefeito, vi você é especialista no assunto, eu estou querendo fazer o dia do holocausto na cidade e queria que você me desse umas ideias’. Aí a gente se encontrou, conversamos, até me convidou para participar da votação. Eu fui representando a comunidade judaica de São Paulo, agradecer a cidade, agradecer o Ricardo pela iniciativa. Nós vamos fazer uma programação grande no dia 30 de abril do ano que vem, quando vai ser a data. Muitas cidades fazem isso. Porto Alegre/RS, Belo Horizonte/MG, Piracicaba/SP, que é onde o Ricardo se baseou o projeto. Tem muita cidades que já fazem essa data. Existe a data mundial, que é 27 de janeiro, quando foi libertado Auschwitz, que a ONU, uns dez anos atrás, colocou como a data mundial. Só que como cai no meio das férias no Brasil, para as escolas é ruim. Então algumas escolas fazem esse dia durante o período escolar para que as crianças possam fazer eventos. Para os judeus é uma outra data que é comemorada. Israel comemora entre o final de abril e o começo de maio. No fim a gente tem três. Tem a da ONU, que a internacional, onde o presidente do Brasil sempre participa de uma cerimônia. Todo ano tem uma cerimônia em alguma capital e o presidente participa. É claro que a Dilma (Rousseff, ex-presidente) não participou. Quando foi o ano dela, se recusou a participar. Mas o Lula participou quando era presidente. Tem a de Israel, que é final de abril e começo de maio e tem as das cidades. Em Itu vai ser 30 de abril, o que é muito bom, porque como eu falei na Câmara, é uma data que a gente tem que parar para pensar nos respeito às minorias, às etnias, acabar com o bullying, respeitar as diferenças sexuais, religiosas, o que for. Ou seja, um dia da tolerância. Então essa data serve para a gente educar os jovens a serem tolerantes. Não é só lembrarem os judeus, mas serem tolerantes com tudo.

 

JP: Qual sua aproximação com Itu?

Eu mudei para Itu faz cinco meses. Eu vinha passar fim de semana, mas minha ideia era um dia vir morar aqui. Aí quando eu parei de ter um trabalho regular e fixo em São Paulo – hoje eu só escrevo e faço minhas palestras, não preciso estar em São Paulo –, faz cinco meses que eu mudei definitivo. A placa do meu carro já é de Itu, meu título eleitoral eu já vou mudar para Itu. Para mim que veio do inferno, é o melhor lugar do mundo. Para quem sai do hospício, isso aqui é o paraíso.

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