Periscópio Entrevista – Paulo Lara

Foto: Gabriela Prado

Nesta semana, o “Periscópio” entrevista o pintor ituano Paulo Lara. Ele fala sobre quando surgiu o interesse pelas artes, como definiu seu estilo único e qual a obra que ele tem mais apreço. O artista ainda comenta o cenário cultural ituano ao ser questionado sobre a valorização dos artistas na cidade. Confira!

 

JP – Como e quando surgiu seu interesse pelas artes e pela pintura?

Meu interesse na pintura, na verdade, vem desde a infância. Desde que me conheço por gente, eu sempre gostei de desenhar. Mas eu acho que, aos 10 anos, eu comecei a fazer algumas coisas. Eu copiava desenhos da Disney, do Mauricio de Sousa, em cartolina, fazia algumas coisas assim. O meu primeiro quadro eu pintei quando tinha 12 anos. Eu cheguei, também, a fazer algumas aulas no colégio de freiras que tinha aqui. Desde criança eu gosto muito de ver arte, de fazer arte; mas o fato de hoje eu viver de arte é outra história. Eu nem sabia que isso ia acontecer.

 

JP – No começo, você sentiu alguma insegurança em relação às artes plásticas? Se sim, quais e por quê?

Sim. Na verdade, a arte sempre foi meu plano B. Eu nunca vivi 100% de arte, porque depois que eu me formei como arquiteto eu só fazia murais. Eu fazia mais murais do que telas, então eu era mais “muralista arquiteto” do que um artista plástico que pinta telas. A insegurança, na verdade, ela é embutida na cabeça da gente quando a gente é criança. Você não vê os pais dizendo “vai ser artista plástico”. Muito pelo contrário, eles já dizem “não faça isso, porque você não vai ganhar dinheiro”. E não é bem assim, porque é um processo longo. Você dedica sua vida a isso. E eu consegui um atalho. Quando eu fiz arquitetura, me aproximei mais da arte. Mas eu nem conseguiria viver 100% da arte se não fosse pelos desenhos que estou fazendo agora. Sou arquiteto e urbanista, me formei na UNIMEP de Piracicaba. Quando me formei, já comecei a pegar projetos pequenos, residenciais, e como eu trabalhava com design gráfico, que eu sempre gostei, eu já fazia muitos trabalhos de identidade visual. Eu peguei tudo: arquitetura, design gráfico e artes plásticas, e acabei fazendo esses desenhos que faço hoje, figurativos contemporâneos.

 

JP – Quando e como você descobriu o seu estilo próprio e excêntrico e o definiu como sua identidade como artista plástico?

Isso foi uma coisa que aconteceu por acaso. Eu sempre gostei de pintar, mas eu queria fazer obras de hiper-realismo. Sempre gostei de imitar fotografia. Eu buscava o máximo a perfeição da imagem, para que a pessoa se perguntasse “nossa, mas isso é uma foto ou uma pintura?”. Eu sempre gostei disso, e isso, dentro do mercado de arte, não tinha espaço. Hoje até tem. Mas, na época, não tinha. Eu fiz uns quadros, comecei a fazer uns desenhos mais “tortinhos” e pensando “vou fazer assim”, e alguns anos depois eu fui participar de um salão, e eu nunca tinha participado de um. Você não paga para participar desses salões, você é selecionado para isso, e eu fui selecionado e ganhei o 4º lugar. E eu assustei. Eu senti que aquilo mexeu comigo e pensei: “Nossa, acho que agora é uma coisa bacana”. Eu pensei que seria algo para trabalhar, mas ainda assim eu não vivia 100% da arte. Depois que eu me mudei para o meu estúdio, eu decidi de vez parar com arquitetura. Foi em 2009 que isso aconteceu, e de 2009 para cá eu decidi viver de arte, totalmente.

 

JP – Para você, desde 2009 até agora, qual sua obra mais importante e com mais valor emocional para você e por quê?

Eu não tenho [risos]. Eu não tenho uma obra específica. Eu amo todas as obras que eu faço, porque o meu trabalho é muito diferente. O meu trabalho conta uma história. Tenho as obras que eu criei e tenho algumas obras que são influenciadas pelas pessoas. Minha esposa, a Renata, trabalha aqui comigo, e às vezes ela fala “nossa, por que não faz tal coisa?”, e aí eu puxo a ideia e faço os desenhos. Os meus filhos também falam “pai, você poderia fazer uma tela assim…”. E a ideia, às vezes, vem de fora, e após isso eu a coloco no papel. Então tem uma influência externa e as ideias que eu tenho. Tem, também, as obras encomendadas. Eu faço uma pesquisa sobre, faço um desenho, e eu gosto dela [tela] o tanto quanto eu gosto da tela que ganhou 1º lugar. Talvez, se eu fosse escolher uma, não como principal, emocionalmente falando, mas pela interferência que teve na minha vida, foi uma de 2006, que foi o primeiro salão que participei, com duas obras.

 

JP – No mundo da pintura e das artes plásticas, quais suas maiores inspirações e por quê?

Eu acho que foram dois momentos da história da arte que eu amo: renascimento, principalmente Michelangelo e Da Vinci, talvez por uma influência da própria escola, mas Michelangelo pelo desenho da anatomia. E Da Vinci pela inteligência dele, pela criatividade sensacional que ele teve. Depois, o impressionismo. Eu sempre gostei muito do impressionismo, e digamos que isso foi até uma influência para eu gostar do surrealismo. Acho até que, se eu não fizesse esses desenhos que faço hoje, eu arriscaria fazer alguma coisa surreal, mas eu vejo meu desenho como uma brincadeira com o real. É sempre uma distorção do real. Eu pego um ambiente e transformo em uma brincadeira, e isso é bacana e é o que as pessoas gostam de ver. Eu pego a cidade e deixo-a com cara de desenho, e as pessoas gostam de ver. Podemos ver pelas animações da Pixar e dos grandes estúdios de animação que elas são vistas mais por adultos do que por crianças. A pessoa acaba se identificando. Um dos desenhos que mais gosto, por exemplo, é “Divertida Mente”. Ele brinca com emoção e é um desenho! E eu acho que meu trabalho consegue chegar às pessoas porque ele é uma releitura divertida do cotidiano. É uma ilusão contrastada com a realidade.

 

JP – Você acha que, aqui na cidade de Itu, o seu trabalho é valorizado pelos ituanos? Se não, por quê?

Não acho que seja pela valorização do ituano, especificamente, mas é que não existe a valorização do brasileiro com a arte. A arte no Brasil começou a ser buscada agora. Durante um bom tempo, as galerias de arte, no Brasil, eram coisas de elite, eram coisas muito caras. As pessoas tinham medo de entrar em uma galeria de arte porque era muito elitizado, e isso fez com que a maioria dos brasileiros se afastasse dela [arte] por muito tempo. Até para entrar em museus as pessoas tinham medo. E com a popularização da arte, com a internet, um fator super importante, foi possível mostrar que é possível você ter algum item de arte na sua casa sem pagar muito por isso. Eu tenho reproduções aqui, como almofadas, azulejos, chinelos, canecas, e é o meu trabalho ali. Então as pessoas começaram a ver que, se elas não tivessem dinheiro para uma obra original, poderiam comprar a cópia, e a internet ajuda muito nisso. Por um tempo, existia uma cúpula de galerias que dominava o mercado de arte, e hoje tem muita galeria independente, o que abriu portas para novos artistas. Quando o artista está no começo, ele precisa vender. Ele joga um preço baixo e incentiva a valorização das obras de arte. Tenho muitos clientes e admiradores do meu trabalho aqui na cidade. Alguns compradores são daqui, outros são de fora, mas tenho clientes ituanos. Poderia ter mais? Poderia. Mas o problema está na cultura do brasileiro em não consumir arte. A obra de arte é um patrimônio. Eu faço uma brincadeira, quando perguntam quanto custa uma obra minha. “O importante não é quanto ela custa, mas por quanto você vai vendê-la futuramente”. Sempre faço essa brincadeira [risos]. E as pessoas falam “Nunca vou vender esse quadro!”. A arte não tem o menor peso dentro da escola, hoje. Eles estão até tirando, cada vez mais. Então começa lá embaixo. O desinteresse pela arte começa lá na infância. E isso se transforma lá na frente, quando ele se torna um adulto. E isso vai além de classe social.

 

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