Espaço Acadil | Cirurgia

Na estratosfera da languidez,
numa sala de cirurgia à meia-luz,
os espectros vêm
beber no meu peito aberto.

Fartam-se, sôfregos.
Há muito o que beber.
Eu sonhei com a minha avó de novo.
Eu passei o dia
lembrando da vez que ela me
pediu para dormir na casa dela
e eu não dormi.

Os espectros acham as pontas
soltas do meu alinhavo torto.
Unem-nas? Não.
Só me mostram: você deixou
as pontas soltas.

Meu plasma é uma sopa
de letrinhas,
e os espectros pescam
uma a uma, as ordenam
e formam todas as palavras
que eu não disse
e as que eu me arrependi de dizer.

Os espectros assumem
formas e rostos.
Pai, mãe, irmãos.
Avó, sempre ela.
Donna, a vira-lata.

Um espectro
se enrodilhou sobre
minha barriga,
como a Donna fazia.
O mesmo calorzinho.

O mais engraçado
é que fui eu mesma que
peguei o bisturi
e fiz uma incisão bem
no meio do meu tórax.

Fernanda Scaravelli
Cadeira Nº 16 I Patrono: Tristão Bauer

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