Cinerama | Arco: sensível e visualmente deslumbrante

NOTA: ✪✪✪✪✪

A animação francesa “Arco”, dirigida por Ugo Bienvenu, é uma das mais delicadas concorrentes ao Oscar de Melhor Filme de Animação. Em seu primeiro longa, o cineasta ( também autor do ótimo quadrinho “Preferência do Sistema”, lançado no Brasil pela Comix Zone) confirma talento raro ao unir imaginação, sensibilidade e comentário social em uma obra visualmente deslumbrante.

A história acompanha Arco, um menino de 10 anos que vive em 2932 e, ao atravessar um arco-íris – portal temporal nesse universo –, vai parar em 2075. Lá, conhece Iris, que o acolhe e tenta ajudá-lo a voltar para casa. O encontro revela um mundo marcado por mudanças climáticas extremas, redomas que protegem os humanos e uma dependência crescente de androides. A aventura se transforma, então, em reflexão sobre futuro, responsabilidade e memória.

Visualmente, “Arco” impressiona ao evocar a tradição da linha clara dos quadrinhos franco-belgas, com traços elegantes e cores luminosas. Cada cena parece uma ilustração cuidadosamente composta, sem perder a fluidez narrativa. Bienvenu constrói um equilíbrio delicado entre o onírico e o distópico, reforçando o caráter poético da jornada.

O coração do filme, porém, está na relação entre Arco e Iris. A amizade que nasce entre os dois sustenta a narrativa com ternura e reforça a importância do brincar e da curiosidade na formação das crianças. Ao desafiar regras para viajar no tempo, Arco encarna a inquietação que impulsiona o crescimento – ainda que envolva riscos.

Sem soar didático, o roteiro aborda a urgência ambiental com clareza, mas também com esperança. Há beleza e emoção em cada descoberta, e é difícil não se comover em momentos-chave da animação, cuja versão em inglês reúne vozes conhecidas como Will Ferrell, America Ferrera, Mark Ruffalo, Andy Samberg e Natalie Portman.

Extremamente lindo e profundamente tocante, “Arco” emociona com naturalidade. É daqueles filmes que arrancam lágrimas sem esforço, porque falam de algo essencial: a necessidade de cuidar do planeta e uns dos outros. Ugo Bienvenu estreia no longa-metragem de animação com maturidade rara, entregando uma obra que encanta do começo ao fim e reafirma o estilo cinematográfico como território privilegiado da imaginação e da consciência contemporânea.

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