Espaço Acadil | O mestre dos periódicos
Houve um tempo em que caminhar pelo Centro de Itu não significava atravessar um lugar, mas relações. As fachadas eram reconhecíveis, as casas tinham donos e as ruas guardavam memórias compartilhadas. A cidade acordava falando.
O jornal organizava o dia. Passava de mão em mão, ocupava mesas, atravessava conversas. Não servia apenas para informar, mas para orientar o pensamento coletivo. Quem escrevia sabia que suas palavras seriam discutidas diante de rostos conhecidos, ávidos por criticar até a própria crítica.
Alguns textos eram reconhecidos antes da assinatura. O leitor se identificava com o autor, com seu estilo. A escrita ácida, que explicava, organizava e provocava reflexão, só podia ser de uma pessoa. Do jornalista, sim, mas também do mestre.
Então, o nome aparecia: Cid Rocha.
Nascido em Itu em 28 de maio de 1926, era filho do jornalista José Rocha e de Maria Bettinelli Rocha. Seu primeiro campo de atuação foi o magistério, nas Escolas Estaduais Prof. Antônio Berreta e Regente Feijó. Não se limitou a transmitir conhecimento, mas a ensinar a pensar.
O jornalismo surgiu como extensão natural desse trabalho. Se na sala de aula falava a alguns alunos, no jornal dialogava com a cidade. A atuação na imprensa fortalecia o professor, e o educador consolidava o jornalista. Sua escrita tinha estrutura, clareza e firmeza, com um toque de ironia.
Tornou-se sócio-proprietário do jornal Itu e colaborou em diversos periódicos locais, como A Voz do Povo, Jornal da Região, Tribuna Ituana, Força Nova, A Federação e, posteriormente, aqui mesmo, no Jornal Periscópio. Participou da Sociedade Amigos da Cidade de Itu (SACI) e do Conselho Municipal de Cultura. Pensar a cidade, para ele, era compromisso.
Permaneceu no magistério até 1980, o mesmo ano em que nasci — coincidência que sugere continuidade mais do que sucessão. Após seu falecimento, em 3 de julho de 1988, a cidade promoveu sua permanência na Escola Municipal Prof. Cid Rocha e na Biblioteca Pública Municipal, espaços que mantêm viva sua vocação de ensinar.
Em tempo de informação acelerada, imediata, desencontrada, descontrolada, muitas vezes sem crédito e credibilidade, jornalistas educadores como Cid Rocha são ainda mais necessários. Profissionais que saibam observar, analisar, desenvolver o pensamento, antes de procurar formar opinião.
Celebrar os cem anos de nascimento do meu patrono nesta Academia é tanto dever quanto inenarrável honra. Cid Rocha é fonte de inspiração. Um símbolo de como este jornal valorizou opiniões fortes e corajosas ao longo de sessenta anos de histórica relevância.
Para quem desconhece o legado de Cid Rocha, aceite a sugestão deste também jornalista, professor e escritor: procure seus textos, devore suas palavras, beba da fonte de todo o seu conhecimento. Minhas linhas, por ora, acabaram. Assim como há aulas que não terminam quando a explicação se encerra, mas quando o “sinal” interrompe o mestre.
Rodrigo Stucchi
Cadeira Nº 02 I Patrono: Cid Rocha

