O que comemorar nas celebrações da Independência?

Todo setembro alguém pergunta, com certa razão:

— O que temos para comemorar?

Basta abrir o jornal. Crise política, violência, desigualdade, juros, dívida, corrupção, intolerância. Nas redes sociais, então, parece que o Brasil descobriu uma nova modalidade de guerra: a guerra entre brasileiros.

E há o cansaço. Cansaço de esperar, de acreditar, de ouvir promessas.

Mas talvez seja justamente agora que devamos olhar para trás.

Em 1822, não nasceu um país pronto. Nasceu um país que teria de aprender, aos tropeços, a ser nação.

E que tropeços!

Tivemos Império, escravidão, República, golpes, ditadura, inflação, crises e salvadores de ocasião — alguns ainda lembrados, outros convenientemente esquecidos.

O brasileiro, aliás, desenvolveu uma admirável capacidade de sobreviver ao próprio Brasil.

Mas desenvolveu também outra: ‘a capacidade de construir apesar de tudo’.

Em pouco mais de dois séculos, abolimos a escravidão, ampliamos a cidadania, conquistamos o voto feminino, criamos universidades, desenvolvemos ciência, agricultura e indústria, produzimos uma cultura admirada no mundo e reconstruímos a democracia.

Em 1988, escrevemos na Constituição palavras que continuam sendo um programa de vida: liberdade, cidadania, dignidade e igualdade.

Criamos o SUS — imperfeito, como quase tudo que fazemos, mas uma extraordinária conquista social.

Nada disso significa que o Brasil esteja pronto.

Ao contrário.

‘Patriotismo não é fechar os olhos para os defeitos da pátria. É ter coragem de enxergá-los e vontade de corrigi-los’.

Amar o Brasil não é amar governos, partidos ou políticos. É amar aquilo que permanece quando todos eles passam: o povo, a terra, a cultura, a língua, a memória e, sobretudo, a esperança.

Por isso, talvez devêssemos mudar a pergunta.

Em vez de:

— O que temos para comemorar?

Perguntemos:

— ‘O que conquistamos e o que ainda precisamos conquistar’?

Em 1822, lutamos pela independência política.

Hoje, precisamos lutar por outras independências: da ignorância, da pobreza, da violência, da corrupção, da intolerância, da mentira e do desânimo.

O inimigo já não está às margens do Ipiranga.

‘Está também dentro de nós, naquele perigoso não adianta’.

Adianta, sim.

A História está aí para provar.

Neste 7 de setembro, portanto, quando a bandeira subir e o Hino Nacional tocar, não olhemos apenas para o passado.

Olhemos para o futuro.

A Independência de 1822 foi conquistada por uma geração.

A independência que ainda buscamos será construída por muitas.

‘Sim, temos o que comemorar’.

Não porque o Brasil seja perfeito.

Mas porque, em duzentos e poucos anos, ‘fizemos muito — e ainda temos a liberdade de fazer mais’.

A Independência não terminou em 1822.

‘Ela continua’.

E talvez a melhor maneira de celebrá-la seja esta: ‘não desistir do Brasil’.

Roberto Melo Mesquita
Cadeira Nº 33 I Patrono Capitão Bento Dias Pacheco