Um romance histórico paulista
Em 1895, o advogado e jornalista Augusto César de Barros Cruz publicou o seu único livro, um romance histórico intitulado O Paulista, por meio da Tipografia do Apostolado, nos fundos da igreja do Bom Jesus, em Itu. Por essa época, ele morava em Avaré, onde havia se casado e onde exercia sua profissão de causídico, mas sem romper os laços com a sua terra querida, da qual havia sido vereador por algum tempo.
No entanto, o autor escondera-se por trás de um anagrama, Austo Rasec. O principal motivo, inferido a partir de pesquisa que realizei para o mais recente volume da série “Patronos” da ACADIL, é a modéstia de Barros Cruz em não querer aparecer como escritor, evitando uma fama para a qual não estava disposto a ter naquele momento. Prova disso é que o próprio distribuiu alguns exemplares para amigos mais próximos e para colegas da imprensa ituana.
Apesar dessa despretensiosidade, o livro parece ter conquistado o interesse do público, e logrou receber uma segunda edição, pouco tempo depois. Barros Cruz não pôde desfrutar muito a recepção do seu romance, pois veio a falecer em 1905, deixando entre os seus alfarrábios dois romances inéditos sobre escravidão. O assunto de O Paulista ainda viria a ser explorado ao longo da primeira metade do século passado: o bandeirismo. Muito antes das pesquisas de Affonso de Taunay e de Alfredo Ellis Júnior, e dos romances históricos de Paulo Setúbal, o livro de Austo Rasec esquadrinhava o passado de São Paulo e seus personagens, não em tom heroico, mas em tom mais realista e mais preocupado em reconstituir o cotidiano dos antepassados paulistas, retomando seus costumes, suas lendas e suas agruras em uma época diametralmente oposta ao da época vivida pelo autor.
A história se passa em fins do século XVII, quando os paulistas ainda embrenhavam-se no sertão à procura de indígenas para escravizar e de metais e pedras preciosas para explorar, intercalando a aventura do protagonista – chamado Paulista – com acontecimentos do dia a dia na então vila de Itu, boca de sertão e entroncamento de caminhos, uma minúscula aglomeração tranquila no espigão entre os córregos do Taboão e do Guaraú. A casa do juiz de direito, a igreja do Bom Jesus, bem como a zona rural, os campos do Pirapitingui e a estrada que vinha de São Paulo para Sorocaba – e passava por Itu – são cenários da trama, que se desenrola sem a pretensão de prender ao máximo a atenção do leitor.
É um texto que, do ponto de vista histórico, carece muitas atualizações em seus dados e interpretações – mas o seu autor não estava comprometido em fazer um trabalho de história, e nem havia formação oficial para isso naquele tempo, no Brasil. Contudo, a bagagem de leitura e a forma como Austo Rasec consegue criar uma ambientação de época, mesclando dados históricos com tramas fictícias e seus respectivos elementos dramáticos, é para admirar e prestigiar.
Vale a leitura deste que é não só o primeiro romance histórico paulista, como provavelmente o primeiro livro editado em Itu.
Leonardo Silveira
Cadeira Nº 37 | Patrono: Augusto César de Barros Cruz

