SONHO DE ESCOTEIRO
Eu me lembro bem deste assunto. Surgiu em nossa família por volta de 1958. O fato é que eu já havia completado dez anos e meu irmão oito e meio.
Foi num aniversário na casa dos compadres dos meus pais. Gente boa, honesta e acolhedora. Só não vou divulgar os nomes, até porque já se foram. O compadre era alegre, gentil e educado e tanto ele quanto meu pai se davam muito bem. A esposa dele era uma senhora prendada que fazia empadinhas como ninguém, um “cappelleti al brodo” delicioso e bolos maravilhosos. Suas duas filhas eram colegiais, estudavam no Colégio Patrocínio e tocavam piano divinamente, costume bastante difundido naqueles tempos. Meu pai sempre solicitava que a filha mais velha executasse o famoso tango “La Cumparsita”.
O compadre do meu pai tinha um Ford e, se por acaso chovia ou fazia frio, ele fazia questão de nos levar para casa, reservando-nos abrigo e segurança.
Foi numa dessas ocasiões que um casal de parentes comentou haver inscrito os filhos no escotismo.
Para quem não sabe, adianto que o Escotismo foi fundado por Lorde Robert Stephenson Smyth Baden-Power, mais conhecido por Baden Power. Foi a Marinha do Brasil, através dos marinheiros e seus oficiais, que trouxe para o Brasil, em 1910, os primeiros uniformes e fundaram o Escotismo.
Aquela conversa paralisou minhas brincadeiras e dei a maior importância ao que diziam. O casal falou maravilhas sobre a importância para os filhos, tidos como levados da breca, após ingressarem no escotismo. Que o grupo de escoteiros era administrado por gente competente.
Que os filhos recebiam orientações de como se comportar socialmente, de como ajudar as crianças e os mais velhos. Que recebiam instruções de primeiros socorros. Exercitavam a cidadania e o respeito aos símbolos nacionais, prestavam continência e hasteavam a bandeira nacional. Que também possuíam a sua própria bandeira. O seu lema era: “Sempre Alerta”, sempre prontos para ajudar o próximo.
Eu fiquei maravilhado e desejei, no fundo do meu coração, me tornar um escoteiro. O melhor veio depois.
Que eles possuíam uniformes cáqui, lenços no pescoço, maravilhosos chapéus e agasalhos, medalhas, símbolos, flâmulas que eu nunca tinha visto. Que eles acampavam e montavam barracas, acendiam fogueiras ao ar livre e à noite reuniam-se em volta delas para ouvir histórias e mais histórias. Cozinhavam a própria comida e recebiam um canivete de mil utilidades.
A essa altura, percebi que meus pais se entusiasmaram e declararam que iriam procurar o serviço de escotismo para nos inscrever.
Confesso que passei a semana inteira sonhando com aquilo. Todavia, após verificar os custos dos uniformes e outros complementos, meus pais imediatamente desistiram do projeto.
Foi a maior frustração. Por isso, quando fui recrutado para o serviço militar, até com oportunidade de ser dispensado, eu disse:
– Quero servir o Exército! Ingressei no serviço militar em 1965 e diria que foi um ano feliz e de grande aprendizagem. Fiz grandes amigos e nunca me arrependi.
Guilherme Machado Del Campo
Cadeira nº 11
Patrono: Mario de Andrade
