A grama do vizinho
LUCAS GANDIA
“Lá fora as coisas são melhores”, “Isso é coisa do Brasil”, “Só podia ser brasileiro mesmo”, “Nada aqui vai pra frente”. Quem nunca ouviu – ou até mesmo reproduziu – essas falas que atire a primeira pedra. Em diferentes contextos, da mesa de bar ao universo acadêmico, lá está o “Complexo de Vira-Lata”, termo definido pelo dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues em uma famosa crônica publicada em 1958. A expressão resume a falta de autoestima da população, que demonstra ter prazer ao se inferiorizar diante de todas as situações. Ao acompanhar o noticiário regional, desconfio que os ituanos têm desenvolvido seu próprio estilo de se “autoviralatizar”, em uma estranha demonstração de que, quanto pior, melhor. Freud explica?
Se alguém diz “este lugar não é bom”, a primeira coisa que podemos deduzir é que esta pessoa ao menos conhece ou viveu em outros locais. Como é possível ter parâmetro para fazer a avaliação se não há bases concretas para a comparação? Muitas críticas são, de fato, fundamentadas: as ruas de Itu estão – há anos – cheias de buraco, muitas praças parecem abandonadas e a saúde pública ainda caminha a passos lentos. E é dever e direito da população cobrar atitudes efetivas por parte dos representantes políticos, afinal, foram eleitos para transformar positivamente a realidade do município.
Entretanto, quase sempre na base do “diz que me diz”, muitos ituanos enchem a boca para falar que a cidade não possui opções de lazer, que o comércio é ruim, que os serviços oferecidos são fracos e por aí vai… Neste círculo vicioso, os prejudicados são os próprios moradores da cidade que, por não prestigiarem o que existe aqui, desestimulam qualquer possibilidade de novos investimentos.
Na edição de sábado passado (3), o “Periscópio” destacou os dados mais recentes do município referentes ao Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), realizado pelo Ministério do Trabalho. Com a manchete “Em toda a região, Itu passa até Indaiatuba na média de empregos”, o jornal tornou-se alvo de críticas de todos os lados. Na página do JP no Facebook, houve comentários como “não viaja”, “só pode ser piada mesmo”, “não pode ser a mesma cidade em que moro”, “de qual Itu vocês estão falando?”, “vergonha publicar uma coisa dessas”, “jornalzinho sem jornalismo de verdade”.
É claro que, nos atuais contextos políticos e econômicos, abordar a temática “emprego” é uma questão muito delicada. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de brasileiros desempregados atingiu 14 milhões no trimestre entre fevereiro e abril de 2017. Evidentemente, essa realidade também chega a Itu, onde muitos moradores perderam seus empregos devido à recessão que abalou o país. É muita gente à procura de uma ocupação no mercado de trabalho, com reais motivos para se preocupar com as contas a pagar e o sustento da família.
No entanto, no caso da manchete do “Periscópio” sobre o cenário ituano, as críticas foram infundadas. Ao noticiar que, em abril de 2017, a cidade registrou variação positiva de 136 postos de trabalho, com 1.424 admissões e 1.288 demissões, o jornal apresentou o comparativo com as cidades da região e forneceu a fonte da informação. Qualquer leitor poderia – e ainda pode – checar todas as estatísticas no próprio site do Ministério do Trabalho. E mais: deveria enxergar com otimismo a recuperação, ainda que muito tímida, da economia da cidade onde vive.
É de se desconfiar, porém, que a maioria dos críticos à manchete sequer leu a matéria, seja na versão impressa ou online. O comportamento não foge ao padrão cada vez mais vigente entre os comentaristas de portal de notícias – que, convenhamos, não são muito diferentes dos corneteiros de banco de praça. O importante é criticar o que de nada se sabe. Talvez porque a grama do vizinho será sempre mais verde. Talvez por uma dificuldade de interpretação de texto. Talvez por um simples sintoma do “Complexo de Vira-Lata”. É provável que nem Freud saberia a explicação.

