Bebês reborn: uma simples brincadeira que virou acalorada discussão nacional
A recente polêmica envolvendo os chamados “bebês reborn” — bonecas hiper-realistas tratadas como filhos por adultos — ganhou repercussão nacional neste mês de maio. O que começou como um fenômeno curioso nas redes sociais rapidamente se transformou em assunto de interesse jurídico, legislativo e psicológico, gerando discussões acaloradas sobre saúde mental, limites sociais e o papel do Estado diante de comportamentos considerados inusitados.
O estopim da controvérsia foram vídeos publicados em plataformas como TikTok e Instagram, nos quais mulheres apareciam levando os reborns a supostas consultas médicas, ocupando assentos preferenciais no transporte público e até buscando atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS). Embora os registros não tenham sido confirmados fora do ambiente digital, a indignação popular levou parlamentares a agir com celeridade.
No Congresso, ao menos três projetos de lei foram protocolados com o objetivo de restringir práticas envolvendo os reborns: um do deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), proíbe atendimentos simulados com bonecas reborn em unidades de saúde públicas e privadas; outro do deputado Dr. Zacharias Calil (União Brasil-GO), veta o uso das bonecas para obtenção de benefícios como assentos e filas especiais e outro da deputada Rosângela Moro (União Brasil-SP), propõe acolhimento psicossocial a pessoas que desenvolvam vínculos afetivos com os brinquedos.
O “boom” gerou diversas brincadeiras na internet. A Prefeitura de Cabreúva, por exemplo, aproveitou a divulgação do kit para recém-nascidos distribuído pelo Fundo Social de Solidariedade para dizer que o mesmo não era destinado para mães de bebês reborn. A publicação gerou debate nas redes sociais, com diversas pessoas questionando se ocorreu de fato alguma solicitação do kit por parte de “mães” de bebês reborn.
O Periscópio questionou a Prefeitura de Cabreúva, que informou que o caso não passou de brincadeira, não havendo registro nem de solicitação do kit, nem de atendimento médico. Em Itu, também não foi registrado nenhum caso de solicitação de atendimento médico do gênero, desmentindo assim os “virais”.
Diante de toda a polêmica e dos “virais”, o JP conversou com a psicóloga Dra. Cybele Micai, que comenta. “O bebê reborn faz mais de 20 anos que existe, né? Ele veio numa finalidade de memórias. De preservar memórias afetivas de apego. Eu já li muito sobre esses bebês substituírem um bebê no luto materno, mas é preocupante, porque de repente a mãe vai alimentar aquele bebê através de um boneco, de uma perda, de um sofrimento pela ausência de um filho real”.

A especialista recorda ainda que bebês reborn têm também finalidade terapêutica em pessoas com Mal de Alzheimer, ajudando a trazer mais estabilidade. Além disso, Cybele explica que a brincadeira lúdica de ter uma boneca é saudável, mas hoje a questão tem se intensificado muito”.
Para a psicóloga, a preocupação é quando o lúdico vai para uma outra área, quando a brincadeira passa a ter exageros. “Eu vejo muito essas coisas como modistas. Um coloca uma situação [envolvendo bebê reborn], dá uma alavancada em visualizações no Instagram, gera muitos likes nos reels, daí outra pessoa resolve fazer o mesmo e aí a gente está falando em um surto coletivo. É muito sensacionalismo para ganhar views e se autopromover.”
Dra. Cybele prossegue. “Percebo também algumas pessoas se alimentando dessa necessidade de se expor. A gente vê tanta coisa acontecendo nas redes sociais, [por exemplo], vou bater numa outra pessoa em público porque vai gerar views e eu vou me tornar uma influencer conhecida, vou ganhar popularidade ou então, o ‘Fantástico’ da Globo fez uma reportagem inteira sobre isso, então eu vou publicar, vou usar. Usar esse mecanismo para me autopromover”, encerra.

