Chá das cinco

 

Certa vez participei, como convidada de um amigo acadêmico, de uma reunião na Academia Brasileira de Letras, em São Paulo.

Suas reuniões aconteciam no Terraço Itália. Gente importante, erudita. Os acadêmicos presentes, vindos de várias cidades do Estado, elas com vistosas joias e seus longos vestidos; eles, de Black-tie. Tudo em grande estilo. Um bom número de pessoas tomou a Academia Brasileira de Letras para a posse de mais um novo imortal.

Logo mais foi servido o tradicional Chá das cinco, apresentando mesas ricamente decoradas e apetitosos petiscos. Já instalada à mesa, observei que a cabeceira sempre disputada pelas personalidades continuava vazia. Explicou meu amigo: “No capítulo das lendas existe, na mesa do Chá, uma cadeira não almejada por nenhuma celebridade – é a da cabeceira”. Nela, Guimarães Rosa teria sentado dias antes de morrer.

Guimarães Rosa foi um dos mais importantes escritores brasileiros. Sua obra prima: “Grandes sertões veredas”. Falece uno ano de 1934.

A ABL, de fato, preza suas tradições e lendas. A reunião protocolar com a posse de um novo membro ocorreu com cerimonial muito bem elaborado e conduzido. Todavia, confesso que, à mesa do tradicional Chá das cinco, me empolguei com poetas e poetisas lançando seus mais recentes trabalhos, onde se misturavam sonhos, ficção e realidade.

Tudo numa perfeita ordem durante o chá. Quem se sentia à vontade se levantava e declamava, cantava, mencionava presenças ilustres, numa harmoniosa convivência.

Poetas e prosadores expressaram o calor de sua imaginação e preencheram momentos de agradável prazer literário. Tudo me deslumbrava e emocionava.

O tempo rodou num instante, nas voltas do meu pensamento… Meu Deus, eu aqui? Desfrutando deste convívio de mentes brilhantes?

Sentia uma alegria sem par, por estar ali, no meio de tão nobres e gentis acadêmicos. Lembro aqui uma frase de Guimarães Rosa: “Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”.

Enfim, “Só Deus é capaz de definir e a literatura registrar”.

 

Ditinha Schanoski

Cadeira nº 19

Patrono: Professor Benedito Motta Navarro