Cinerama | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Hamnet, Drama, 2025 | Direção: Chloé Zhao | Classificação indicativa: 14 anos | Duração: 2h05 | Em cartaz nos cinemas
NOTA: ✪✪✪✪
Em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, o cinema se afasta deliberadamente do pedestal do gênio intocável para encarar William Shakespeare como um homem atravessado pela perda. O filme, dirigido com sensibilidade por Chloé Zhao, parte de uma tragédia íntima (a morte do filho Hamnet, aos 11 anos, vítima das pragas do século XVII) para iluminar as origens emocionais de uma das obras mais célebres da dramaturgia ocidental. Aqui, antes do “ser ou não ser”, há o silêncio do luto; antes do palco, a casa; antes do mito, a família.
O grande eixo da narrativa é Agnes Shakespeare, vivida de forma magnética por Jessie Buckley. É dela o olhar que conduz a história e é nela que o filme encontra sua maior força. Guardiã de saberes ancestrais, conectada à natureza e envolta em uma espiritualidade que beira a superstição, Agnes personifica um conhecimento feminino frequentemente marginalizado – e o longa faz disso sua espinha dorsal. Seu luto é denso, físico, quase palpável, ecoando a famosa fala de Hamlet sobre “as dores do coração e os mil golpes naturais que a carne herda”.
Buckley rouba a cena com uma atuação contida e devastadora, enquanto Paul Mescal oferece um Shakespeare humano, distante da aura monumental, um homem que observa, absorve e transforma a dor em palavras. Outro destaque comovente é Jacobi Jupe, que entrega uma atuação surpreendentemente madura como Hamnet. Sua presença dá peso à ausência que se instala após sua morte, lembrando que, em Shakespeare, a morte raramente é apenas um fim; é um motor narrativo.
O roteiro, escrito por Zhao em parceria com Maggie O’Farrell, autora do romance homônimo, faz questão de deslocar o foco do escritor famoso para a mulher que permaneceu, criando os filhos enquanto o marido se tornava um nome eterno. Essa escolha reforça a ideia de que a obra nasce do cotidiano, das perdas e dos afetos.
Com ritmo cadenciado e direção precisa, “Hamnet” prefere a contemplação ao excesso dramático. As referências às peças de Shakespeare surgem de forma orgânica, quase como fantasmas. Afinal, “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”. O filme não explica Hamlet; ele o sente. E, ao fazê-lo, transforma a tragédia pessoal em uma reflexão delicada sobre amor, memória e criação artística, provando que, por trás do clássico, sempre houve vida – e morte.

