Consciência negra, negra consciência
Quando pensamos na questão da consciência negra, somos, irremediavelmente, remetidos a um passado recente, quando nossos irmãos negros eram espancados até a morte, em praça pública, transformando o dia em feriado, para que todos pudessem assistir à maldade branca, à maldade dos senhores desalmados, de ontem e de hoje, sem qualquer consciência sobre sua demência, sem qualquer consciência sobre o fato de que qualquer poder sem amor é loucura, é doença. Pergunto-me… até espancados.
Pergunto-me se a comemoração de 20 de novembro significa realmente um pedido de perdão ou agradecimento aos construtores de casarões e artistas anônimos que eram espancados em praça pública, em resposta à insistente luta pela liberdade.
Será que a dignidade, enfim, falará mais alto, e se curvará à verdade, reconhecendo um passado recente, que nos enche de vergonha?
Há alguns anos, em minha aula, na Universidade onde lecionava, pedi a uma aluna que lesse o poema abaixo, e pedi a todos que aplaudissem os poucos negros de uma sala de quase cem alunos – aplaudissem os poucos que fizeram a façanha de chegar até aquela sala de aula, depois de tudo que passaram, depois de tudo que sofreram nas mãos dos brancos.
Quando me vejo cristão e me compadeço com o sofrimento do Cristo, nosso exemplo maior, me pergunto se o sofrimento ao qual foram submetidos centenas de milhões de irmãos nossos, não só nas Américas, mas em todo o mundo – e continuam sofrendo, não é digno, também, de compadecimento e reconhecimento público.
Consciência, negra consciência!
Consciência!
Negra!
Consciência sobre um passado
Negro!
Um passado negro de negras ações
Negras atitudes de um branco com alma negra
Um negro passado!
Consciência!
De um passado negro passado a limpo
O príncipe, negro
Com um passado limpo
Limpando a alma, lavando o espírito
Um príncipe, vários príncipes!
Guerreiros, heróis, crianças e velhos
Homens e mulheres, príncipes e heróis
Fantoches de um branco sem consciência
Consciência!
Consciência sobre a maldade
Consciência sobre o passado
O passado, passado a limpo!
Feriado!
O passado em praça pública
Para assistir à maldade inconsciente
De um branco onisciente, de um branco insano
Agredindo ao negro
Em praça pública!
Agredindo ao negro de alma branca
Que lhe traz a consciência de sua alma negra
Negra nas intenções
Negra nas ações
Negra nas maldições
Maldições que hoje voltam
Vão e vem, em um vai-e-vem sem fim
Até que haja a consciência, plena!
E a aceitação…
Consciência!
Lavando a alma, trazendo a calma
A esta alma negra
Lavando um passado e construindo um futuro
Consciência!
Em uma só palavra, a ciência, conosco
Conosco o conhecimento, sobre nós mesmos
Sobre o que fomos e o que somos
Consciência, paz, amor
Com ciência!
Sidarta da Silva Martins
Cadeira nº 20 I Patrono: Luís da Silveira Moraes

