Espaço Acadil | Ah, que saudade da minha goiabeira!

Crônica de um menino pendurado no céu

A goiabeira ficava logo no começo do quintal, mas para mim era quase o topo do mundo. Eu tinha nascido em Itu, é verdade, mas a minha infância — aquela que mora até hoje num canto macio da memória — viveu inteira em Cabreúva, num casario antigo diante da praça principal. Era ali, entre o barulho dos passos na rua e o cheiro de café vindo da cozinha, que a minha grande amiga cresceu comigo: a bendita goiabeira.

Descobri a árvore quando ainda nem sabia direito meu próprio nome. Ela estava lá antes de mim, firme, silenciosa, convidando. E como convidava bem… Custei a aceitar o chamado. Na primeira vez, subi com tanto cuidado que até o vento ficou paciente. Encostei o peito no tronco, busquei o galho mais baixo com a mão direita, o mais alto com a esquerda, enquanto os pés tateavam o tronco como quem procura terra firme num mundo novo. Quando alcancei meu primeiro “lá em cima”, percebi que o chão ficara longe — e que isso me fazia incrivelmente feliz.

Depois disso virei freguês. Subia todas as tardes, algumas manhãs e, quando dava, até entre um chamado da minha mãe e outro. Lá em cima, escondido entre as folhas, eu observava passarinhos, conversava com o vento, balançava nos galhos como se fossem redes e, por vezes, até batia papo com a própria árvore. Sim, eu conversava com ela — e juro que ela respondia. A linguagem das árvores não é feita de palavras, mas de sombras, folhas e um certo silêncio cheio de sentido.

A goiabeira era meu esconderijo oficial, principalmente quando alguma traquinagem minha ameaçava virar bronca de pai ou irmão mais velho. Tereza Cristina, minha irmã, sabia bem: se eu sumia de repente, podia me procurar no alto da goiabeira — provavelmente eu estaria lá, rindo do mundo e da minha própria esperteza.

Quando chegou o dia da mudança, de Cabreúva para Itu, senti que não cabia em mim tanta tristeza. Como levar comigo o meu abrigo? Como arrancar do quintal a amiga que me ensinara a voar sem sair do galho? Não deu — e talvez ainda bem. Algumas coisas precisam ficar onde nasceram, para que possam continuar crescendo dentro da gente.

Até hoje, quando a memória abre suas janelas, é a imagem daquela goiabeira que aparece primeiro. Grande, amiga, fiel, tão parecida com a da foto que trago agora. E tão viva dentro de mim que, às vezes, ainda sinto a textura do tronco nas mãos e o mundo ficando pequeno lá embaixo enquanto eu subo, de novo, para o meu pequeno paraíso de menino.

Roberto Melo Mesquita
Cadeira Nº 33 I Patrono Capitão Bento Dias Pacheco

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