Espaço Acadil | O prazo nosso de cada dia!
Hoje, o relógio é meu inimigo. Não o relógio em si, obviamente, mas o tempo.
A gente não controla o tempo, mas ele costuma nos controlar – ou, na melhor das hipóteses, nos prega peças, como neste instante, em que esse engraçadinho insiste em correr rápido demais entre os minutos, aumentando minha angústia.
Prazo, prazo, prazo.
O celular já tocou, o tilintar do WhatsApp também. Esvai-se o prazo para a entrega do texto ao jornal que roda amanhã.
Procuro café na cafeteira elétrica, apenas para constatar que este já acabou. Prazo.
Desde quando nossa vida se tornou isso? Nascer; balbuciar as primeiras palavras; construir frases; dar os primeiros passos; começar a trajetória no sistema educacional (os mais afortunados, porque, no Brasil, educação é quase luxo e o analfabetismo funcional ganhou o lastro do diploma); escolher uma profissão (ou ser lançado nela pela necessidade). E, a partir de então, definir uma meta de vida e um prazo para atingi-la.
Anos, décadas. Não importa. Tudo em nosso cotidiano se limita a prazos: para o sono, para o despertar, para levar o filho à escola, abrir o escritório, produzir, preparar o almoço, retornar ao trabalho, chegar em casa, jantar, dormir. E, no dia seguinte, começar essa sequência de interlúdios novamente.
Há quem consiga enxergar romantismo nos prazos; os de veias poéticas podem preencher as lacunas de tempo com estrofes românticas, ou, ainda, aos afeitos do espírito byroniano, com as vicissitudes de contornos trágicos do cotidiano.
Acredito que tenha havido uma época em que nossas relações (objetais e subjetivas) não eram fracionadas em prazos. Talvez, tenha sido uma época mais feliz.
Suspiro. Olho para a tela em branco à minha frente. Sacudo os miolos; nada sai.
O problema é que a inspiração costuma não estar nem aí para os prazos. Ela vem sem aviso, como um caminhão desgovernado, sobrepõe-se às tarefas do dia e guia os dedos pelo teclado, à medida que tecemos palavras, frases, páginas, capítulos.
E, voilà! Temos mais um livro.
Todavia, quando é o prazo que nos faz pisar no acelerador, a inspiração escapole.
Droga, droga, droga!
Digito uma frase inteira e deleto. O WhatsApp apita; preciso me lembrar de trocar o aviso sonoro dessa coisa – o atual está me dando nos nervos.
Deixo para depois. Antes, o prazo.
Evito olhar a mensagem. Certamente, é uma cobrança. Merda!
Então, uma luz! Certa vez, li em algum lugar – não me recordo se foi na carroceria de um caminhão ou num livro de pensamentos – que a resposta certa para um problema é sempre a mais simples e direta. Algo mais ou menos nesse sentido.
Oras, se assim o era, eu tinha a solução. Chegou o momento de colocar os dedos a trabalhar.
Abasteço a cafeteira de água, troco o filtro, ponho o pó de café e ligo. Em segundos, o aroma de cafezinho fresco inunda o escritório.
Sento em frente à tela em branco e começo a escrever.
O tema do texto será sobre prazo, lógico.
Torço para que ainda dê tempo e digito as primeiras palavras.
Paulo Stucchi
Cadeira Nº 29 I Patrono: João Tibiriçá Piratininga

