Lourdinha, a invicta

J.C. Arruda

Lourdinha era competente e esforçada nos serviços que prestava ao Pastifício Cruzeiro, acumulando as funções de recepcionista, telefonista, escriturária e, não raras vezes, até mesmo como faxineira. Era estimada por todos, pois esbanjava educação e simpatia. Fazia isso durante o dia, pois à noite ainda dava expediente no Ituano Clube, onde também era uma espécie de coringa, fazendo de tudo um pouco.

Já passando dos 40 anos, Lourdinha era, digamos, ainda invicta. Jamais alguém a viu namorando alguém, durante toda a vida. Não, não pense você que está lendo, que Lourdinha era uma mulher pudica, cheia de cuidados com a moral e os bons costumes. Na verdade, o que mais Lourdinha queria é ter um homem só seu que a levasse para a cama e a fizesse trilhar o mau caminho. Infelizmente, até aquela época, esse momento tão desejado nunca ainda havia acontecido.

É duro de reconhecer, mas a realidade que Lourdinha tinha que enfrentar diuturnamente, apesar de sua simpatia e afabilidade no tratamento às pessoas (principalmente do sexo masculino) não conseguia disfarçar que ela era uma mulher, como diria, desapetrechada de formosura, ou como diriam os simpatizante do PSDB, Lourdinha era uma mulher desabonitada. Interessante é que ela tinha cabelos claros, um nariz delicado, olhos verdes, pele macia, mas….. o conjunto não agradava!

Ela dava especial atenção aos meninos, quase crianças, que frequentavam o clube, certamente na convicção de que eles, logo cresceriam e se transformariam em rapazes. E eles cresciam, se transformavam em rapazes, mas nunca houve um deles capaz de enfrentar os carinhos de Lourdinha. Porém, ela não desistia. Fazia tudo quanto era simpatia para encontrar o amor, inutilmente. Quando ficou sabendo que, se colocasse a imagem de Santo Antonio virada de ponta cabeça dentro de uma bacia com água, sua sorte viraria, não teve dúvidas: consumiu dezenas de imagens do pobre santo que acabaram se derretendo dentro d´água. Mesmo assim, o sucesso não veio.

Depois, veio uma imbecil que sugeriu a ela que desse um jeito nos próprio dentes que, de fato eram todos bem tortos. Naquele tempo, ainda não existia implante e foi curioso o dia em que Lourdinha apareceu no clube exibindo dentes novos e alinhados, em duas caprichadas dentaduras inferior e superior produzidas com competência pelo protético Benedito Rizzi. Só que as coisas pioraram, pois se a aparência da boca melhorou, junto apareceu um cheirinho desagradável cada vez que ela falava de perto com as pessoas.

Foi por esse tempo que Pai Robério chegou a Itu, vindo de Vitória da Conquista, instalando sua Tenda de Umbanda na Vila São José, conseguindo grande sucesso na cidade, com seus guias espirituais. Principalmente a mulherada fazia fila para ser atendida por ele. Não demorou e Lourdinha estava na fila. Quando chegou a vez dela, ficou surpresa com o Pai de Santo. Ele já estava por dentro da vida dela. Pôs as cartas na mesa e foi dizendo:

– Minha querida, nesta vida você não vai ser feliz no amor. Mas, na próxima encarnação, você será uma mulher muito desejada pelos homens e eles se arrastarão a seus pés.

Lourdinha saiu de lá, conformada. Mais que conformada, ganhou esperanças. Quando passava pela Praça da Matriz, viu que estavam construindo o primeiro prédio alto da cidade e pensou: “ Quanto mais cedo eu morrer, mais cedo começará minha outra vida”. Foi assim que, disfarçadamente, entrou na construção e foi se esgueirando andar por andar, até chegar no oitavo.

Nem precisou de coragem para se atirar lá de cima. Só que Lourdinha, não morreu. Por incrível coincidência, caiu sobre a carroceria de um caminhão carregado de bananas. Com a queda, perdeu os sentidos. Assim que se recuperou, ainda tonta e sem saber direito onde estava, começou a apalpar em volta e, sentindo as bananas, encontrou forças para sussurrar com um sorriso nos lábios:

– Um de cada vez, por favor! Um de cada vez. Façam uma fila.