Paulo Stucchi troca o Holocausto pela escravidão em seu novo romance

Após anos dedicado a romances históricos marcados pela Segunda Guerra Mundial e pelo nazismo, Paulo Stucchi decidiu sair da própria zona de conforto. Em “A Dança da Serpente”, lançado pela editora Jangada, o escritor e jornalista desloca o foco da Europa do século XX para o Brasil colonial e para os anos de chumbo da Ditadura Militar, mantendo, no entanto, um eixo comum: a violência produzida pelo medo, pela intolerância e pelo abuso de poder.
“Eu prometi pra mim mesmo que não queria mais escrever sobre o nazismo. Cansou, esgotou. Eu não queria ficar reconhecido como um escritor de um tema só”, afirma Stucchi, finalista do Prêmio Jabuti 2024 com “O Homem da Patagônia”, em entrevista exclusiva ao JP. A decisão não significou abandonar o romance histórico, mas ampliá-lo. “Queria escrever algo mais enraizado no Brasil, sobre o Brasil.”
A ideia inicial passava pela Inconfidência Mineira, mas o processo de pesquisa levou o autor por outros caminhos. Ao estudar o misticismo no Brasil colonial, Stucchi se deparou com a figura real de Luzia Pinta, mulher escravizada, curandeira e uma das poucas pessoas condenadas pela Inquisição em território brasileiro. “Eu não conhecia a personagem. Me encantei pela figura dela. O lado ruim é a falta de subsídio histórico; o lado bom é que as lacunas são justamente onde a gente cria.”
A história de Luzia o conduziu a Sabará (MG), no auge do ciclo do ouro, e também à compreensão de que a mudança de tema não representava uma ruptura, mas um deslocamento de atrocidades. “Você sai do Holocausto, da filosofia fascista de higiene racial, e entra na escravidão, que foi um outro tipo de holocausto. São diferentes, mas na essência são dois tipos de mortandade criados pelo ser humano por dificuldade de coexistir com as diferenças.”
Para Stucchi, tanto o nazismo quanto a escravidão se apoiaram em discursos legitimadores. “No caso do nazismo, a pseudociência justificando a superioridade ariana. No caso da escravidão, o eurocentrismo e o catolicismo da época justificando a inferioridade dos negros. Até hoje a África paga o preço disso.”
Pesquisa e ficção
Ambientado em duas épocas distintas, o romance entrelaça o Brasil colonial do século XVIII e a Sabará de 1977, em plena Ditadura Militar. Na narrativa contemporânea, as gêmeas Cléo e Clarice retomam, de forma simbólica e espiritual, o legado de perseguição vivido por Luzia Pinta quase dois séculos antes.
Stucchi faz questão de diferenciar seu trabalho do de um historiador. “Eu não sou historiador. Sou jornalista apaixonado por história. Não é um livro de história, é um livro baseado em fatos históricos.” Ainda assim, a pesquisa foi extensa e cuidadosa. “Você não pode fugir de coisas inegociáveis: a estrutura social, a visão de mundo da época, o julgamento da Luzia, os registros da Inquisição, a tortura em Portugal.”
O autor destaca também as especificidades da escravidão na região mineradora. “A escravidão no ciclo do ouro foi diferente da de São Paulo, que foi muito mais cruel. Luzia comprou a própria alforria com os trabalhos que fazia.” Já a parte ambientada nos anos 1970 exigiu outro tipo de abordagem. “A pesquisa de campo foi fundamental. Sabará preservou muito da sua arquitetura, mas a cidade mudou. Moradores ajudaram a corrigir detalhes da ambientação.”
Um dos maiores desafios do livro, segundo Stucchi, foi escrever a partir de três personagens femininas em contextos históricos profundamente patriarcais. “Escrever uma voz feminina foi o mais desafiador. É um homem branco escrevendo sobre mulheres empoderadas, cada uma à sua época, e todas pagando um preço por isso.”
O autor traça paralelos entre passado e presente. “Até hoje, quando um homem em cargo de chefia é duro, ele é bravo. Quando é mulher, é histérica.” Ao estudar a Inquisição, ele se deparou com textos que reforçavam essa visão. “As mulheres eram vistas como mais propensas à bruxaria, mais sensíveis, mais suscetíveis aos demônios. Curandeiras, parteiras, mulheres que mexiam com ervas sempre foram tachadas de bruxas.”
Essa perseguição, segundo o escritor, está no centro de “A Dança da Serpente”. “Tem intolerância religiosa, racismo, machismo. As mesmas pessoas poderosas que buscavam Luzia pelas curas foram as que a entregaram.” Para ele, o romance é também um convite à reflexão contemporânea. “Espero ter feito uma pequena contribuição para um pensamento crítico sobre como a sociedade enxerga o feminino.”
Amadurecimento
Leitor compulsivo, Stucchi transita por autores como Franz Kafka, literatura japonesa e escandinava, buscando criatividade, crítica social e estilo narrativo. Seu processo de escrita, no entanto, foge ao método tradicional. “Não existe processo, é um caos que se organiza no papel. Eu escrevo em um fluxo só, não releio. Se eu releio, começo a achar tudo ruim.”
O amadurecimento literário, segundo ele, explica as mudanças de tom e estilo ao longo da carreira. “Quanto mais você escreve, melhor você fica. A forma como escrevi sobre o nazismo no primeiro livro é muito diferente de como escrevi agora. Faltava maturidade, visão de mundo.”
Esse amadurecimento também se reflete nos temas escolhidos. “Hoje, ‘A Dança da Serpente’ traz feminismo, negritude, escravidão, intolerância religiosa. Não é sobre o que o Paulo acredita, são fatos. A religião, historicamente, serviu ao controle e ao reforço do preconceito.”
Além do romance recém-lançado, Stucchi avisa que já tem um novo livro preparado, que irá retomar o tema nazismo, intolerância e fanatismo. Ele revela ter escrito um livro ambientado em Itu que aborda diretamente o passado escravocrata da cidade. A obra, porém, foi abortada – mas não saiu do radar. “Itu não está preparada para confrontar o próprio passado. Precisa tirar a máscara e encarar suas mazelas.” Para ele, esse enfrentamento é fundamental. “Toda cidade precisa fazer isso para identificar as razões do seu atraso.”
>>> Lançamento
Com 472 páginas, “A Dança da Serpente” já está em pré-venda na Amazon e em outras livrarias on-line. O lançamento oficial acontece no dia 07 de março, às 15h, na Livraria da Vila da Avenida Paulista, em São Paulo. Outros lançamentos em Curitiba (PR), Sabará, Belo Horizonte (MG) e Itu estão programados para a sequência.

