Sabedoria Paterna

J.C. Arruda

Quando Matilde fugiu de casa com o viajante das Rações Porcinas, a cidade inteira ficou sabendo. Porque ela e Leonardo formavam um casal modelo na cidade. Ambos não eram da elite, mas frequentavam o Clube Comerciários pelo menos uma vez por semana, onde iam para dançar ao som das grandes orquestras como Nelson de Tupã, Sambrasil Internacional, Pedrinho de Guararapes e outras. Também frequentavam de vez em quando o Bar do Alemão, pelo menos nos dias após Leonardo receber o pagamento do Banco Comércio Indústria do qual era funcionário de confiança.

Eles tinham dois filhos, ou melhor, um casal: Maria Clara com 12 anos e João Carlos completando os 15. Após fugir com o viajante, Matilde ficou por volta de três meses sem dar notícia. Quando reapareceu, não voltou para casa. Por meio de uma amiga, marcou encontro com os filhos no Largo do Carmo, sem a presença do pai, lógico. Na ocasião fez o que pôde para explicar a situação, tanto para João Carlos como para Maria Clara. Contou que havia conhecido o viajante, Camilo era o nome dele, por acaso, quando tinha ido até a Cooperativa Agrícola para comprar ração para os dois cães boxers que tinha em casa.

Por obra do destino, esse Camilo também tinha dois boxers na casa dele e, a partir daí, entabularam uma conversa que parecia que não ia dar em nada, mas que acabou dando. Sucederam-se alguns telefonemas entre Camilo e Matilde, depois alguns encontros e ela acabou por se apaixonar. Ela tinha pensado em contar tudo para o marido Leonardo, mas este era do tipo mais conservador que se possa imaginar. Não iria entender jamais. Até que o único remédio foi fugir com o viajante.

Agora morava com ele em Campinas e estava quase que totalmente feliz. Só faltava a companhia dos dois filhos para que a felicidade fosse total. Havia conversado com o novo companheiro e Camilo havia concordado em aceitar que Maria Clara e João Carlos também fossem morar em Campinas. A conversa parou por ali. Tanto a filha como o filho reagiram com veemência: não iriam abandonar o papai Leonardo de jeito nenhum. Para encurtar a conversa, Matilde voltou para Campinas e nunca mais procurou os filhos que continuaram a viver com Leonardo.

O tempo passou e a vida continuou normalmente, mas com um detalhe: Leonardo parecia um cão de guarda da filha. Não dava um passo sem que o pai estivesse no encalço. Por outro lado, dava toda a liberdade para o filho. Causava a impressão de que o pai era apenas e tão somente um machista comum. Naquele tempo dizia-se que toda donzela tem um pai que é uma fera e que todo donzelo tem um pai sem nenhum zelo. Era mais ou menos por aí. Havia quem cochichasse na cidade que era trauma de Leonardo que não queria para a filha o mesmo destino de Matilde. Assim, enquanto João Carlos trocava de namorada todo mês, Maria Clara mal podia azarar qualquer rapaz, por mais correto que este fosse.

Até que um dia, Maria Clara, com muito esforço, ganhou coragem e resolveu ter uma conversa aberta com o pai. Argumentou que já estava com 21 anos e não conseguia entender uma coisa: por que é que a sociedade respeita e até admira os homens conquistadores, que vivem seduzindo as mulheres, enquanto que não aceita mulher que conquista vários homens? Claro que, no fundo, ela estava questionando a própria situação, sem pretender afrontar o pai. Mas, surpreendentemente, Leonardo tinha uma explicação filosófica para a filha:

– Maria Clara, aprenda isto. Todo homem é portador de uma chave. Toda mulher é portadora de uma fechadura.

Uma chave que abre uma fechadura, tem valor. Se abrir duas fechaduras, tem mais valor. Se abrir inúmeras fechaduras diferentes, é como se fosse uma chave mestra tornando-se quase indispensável. Já uma fechadura que se abre com qualquer chave, torna-se inútil. Não tem valor, entendeu?

Maria Clara, tanto entendeu que se casou virgem e vive feliz até hoje. Não sente a menor atração por viajantes. Ao contrário de Matilde…