Saúde feminina vai além do ginecologista: cuidado integral envolve corpo, mente e estilo de vida

No Mês da Mulher, o debate sobre saúde feminina ganha ainda mais relevância. Especialistas alertam para impactos da sobrecarga, negligência com a própria saúde e a importância da prevenção ao longo da vida desde cedo. Mais do que consultas ginecológicas, o cuidado com a mulher precisa ser integral, envolvendo aspectos emocionais, sociais e físicos ao longo de todas as fases da vida.

Segundo Damião Rocha, coordenador do curso de Psicologia do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp), cada etapa da vida feminina traz desafios específicos. “Na juventude, surgem questões ligadas à identidade, autoestima e às expectativas sociais criadas para as mulheres. Já na vida adulta, aparecem desafios relacionados à carreira, relacionamentos e escolhas de vida. Cada fase exige adaptações emocionais importantes”, explica.

A maternidade, quando acontece — ou mesmo quando não acontece —, também pode ser um período de intensas emoções e cobranças. Já no climatério e na menopausa, as mudanças hormonais impactam o humor e a forma como muitas mulheres se percebem. No envelhecimento, sentimentos como solidão, perdas e a busca por novos sentidos podem ganhar espaço.

Além das transformações naturais da vida, a sobrecarga da dupla ou tripla jornada é um fator de atenção. “Muitas mulheres vivem com a sensação de precisar dar conta de tudo o tempo todo. Esse acúmulo pode levar ao cansaço emocional, ansiedade, sensação de insuficiência e até o esgotamento”, destaca Rocha. Segundo dados do IBGE, as mulheres gastam, em média, 21,3 horas semanais com afazeres domésticos, enquanto os homens dispendem 11,7 horas semanais.

Esse cenário tem reflexos diretos na saúde física. De acordo com o professor do curso de Medicina do Ceunsp, André Tabarassi, a negligência com o autocuidado pode trazer consequências importantes, especialmente pela perda de oportunidades de diagnóstico precoce de doenças potencialmente tratáveis. Nesse contexto, o médico destaca que a saúde da mulher deve ser prioridade, inclusive dentro do ambiente familiar.

Além disso, o especialista reforça que sinais de cansaço crônico, estresse constante, alterações de humor, dificuldade de concentração e ganho de peso não devem ser ignorados. Muitas vezes, esses sintomas são naturalizados, mas podem indicar que algo não está bem e precisam de avaliação.

A relação entre saúde emocional e física também é evidente na prática clínica. “O estresse crônico impacta diretamente o organismo e pode influenciar desde alterações hormonais e imunológicas até o desenvolvimento de doenças mais graves ao longo do tempo”, explica Tabarassi. Quadros como ansiedade e sobrecarga emocional também podem contribuir para hábitos prejudiciais, como alimentação desregulada e sedentarismo.

Outro ponto relevante é o hábito, ainda recorrente, de priorizar o cuidado com os outros em detrimento de si mesma. Esse padrão, socialmente construído ao longo do tempo, pode levar ao esgotamento emocional, à sensação de vazio e à perda de contato com os próprios limites.

Estratégias de autocuidado

Para mudar esse cenário, práticas simples de autocuidado podem fazer diferença. “Respeitar os próprios limites, descansar, manter momentos de lazer e cultivar relações de apoio são fundamentais. Pedir ajuda também faz parte do cuidado”, reforça Rocha.

Do ponto de vista físico, a prevenção é essencial. “Manter a prática de atividade física, ter uma boa alimentação, hidratação adequada e realizar exames periódicos são hábitos que reduzem o risco de diversas doenças, incluindo cânceres ginecológicos”, orienta Tabarassi.

Para especialistas, falar sobre saúde feminina também envolve discutir mudanças sociais. A sobrecarga, as múltiplas jornadas e as expectativas impostas às mulheres impactam diretamente o bem-estar. Cuidar da saúde da mulher de forma integral passa por reconhecer essas realidades e ampliar espaços de apoio, escuta e redução de cobranças.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *