O amor em meio a Segunda Guerra Mundial

Daniel Nápoli

Em setembro, completou-se 80 anos do início da Segunda Guerra Mundial. Iniciada em 1939, teve fim em 1945, deixando milhões de pessoas mortas e marcas de dor que perduram até hoje, em uma das fases mais negras da história da humanidade.

 O Periscópio traz hoje um pouco da trajetória de um personagem que de alguma forma, viveu os horrores da guerra, mas por meio dela, acabou encontrando o amor. Trata-se do tenente reformado do Exército Brasileiro, Santin Spinoso, que no dia 1º de novembro, completará 101 anos de vida.

 Tendo ingressado no Exército em 1941, no Quartel de Itu, aos 23 anos de idade, como soldado, foi promovido a cabo e a 3º sargento, após prestar dois concursos internos. No ano seguinte, ao lado do irmão Luis Nunciato Spinoso e demais companheiros, foi convocado para defender a Costa Norte do Brasil das ameaças alemãs, junto a 7ª Divisão de Infantaria e da Artilharia Montada.

Tendo como meta a defesa dos portos de Recife e Maceió, além do restante do litoral, Santin comenta as dificuldades. “O medo de morrer ali, em uma emboscada era muito grande. Sentíamos falta da família e dos amigos”, relata.

  A convivência com o medo, de acordo com o tenente reformado, deixou marcas profundas em seu irmão, já falecido. “A qualquer momento, poderíamos ser chamados para lutar na Itália. Isso nos deixava muito nervosos, pois sabíamos que iríamos, mas não tínhamos certeza de nossa volta. Meu irmão, sargento Luiz Nunciato Spinoso, não resistiu a tanta pressão e desenvolveu uma neurose de guerra, que o acompanhou até o fim dos dias”.

Embora não tenha ido com tropas brasileiras para a Itália, a atuação na Costa Norte do Brasil, mantinha  medo constante durante a missão, com uma possível morte em confronto. Porém, longe de Itu, sua terra natal, o medo de Santin deu espaço para outro sentimento: o amor.

Em uma missão em Maceió, o tenente reformado conheceu Marieta. “Ela parecia uma pintura, tal era sua beleza. Eu a encontrei algumas vezes passeando com um sobrinho pequeno, de nome Manoel Vasconcellos”.

 Santin, prossegue. “Nosso namoro era sempre supervisionado por Stelina (irmã de Marieta) e seu marido Emanuel, e nossos passeios eram comunitários. Em minhas folgas, Marieta levava-me a conhecer os pontos turísticos da cidade”.

Com a aproximação do final da guerra e o casal cada vez mais apaixonado, o militar decidiu pedir sua namorada em casamento, porém, nos tempos de guerra, os casamentos eram proibidos.

“Sem saber do fato, dei entrada dos papéis para o processo do casamento religioso. Querendo marcar a data do Casamento Civil, fui notificado de que os casórios estavam proibidos, até o final da guerra. Meu próprio sobrenome italiano era empecilho (pois Brasil e Itália estavam em lados opostos no conflito mundial)”.

 Mas o tenente reformado não desistiu. “Tentei, então, obter a autorização do comandante, o que me foi negado. Sabendo do possível enlace, o próprio comandante procurou o padre Francisco Brandão Lima, para proibi-lo, pessoalmente, de realizar tal união. Frente às explicações do padre de que os proclamas já haviam corrido e da impossibilidade de parar o processo, o casamento foi liberado”.

 Santin e Marieta casaram-se então no dia 29 de julho de 1944, na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, em Maceió, cidade em que no dia 5 de maio de 1945, nasceu o primeiro filho do casal, José Petrúcio Spinoso.

 No mesmo ano, com o final da Segunda Guerra Mundial, Santin retornou para Itu com o irmão, trazendo consigo a esposa e o filho,sendo reintegrando ao 4º RAM (atual 2º GACL – Regimento Deodoro).

 Posteriormente, em 1947, recebeu a Medalha de Guerra, como integrante da Força Expedicionária Brasileira, sendo promovido a 1º sargento no ano seguinte. Porém, o período da guerra lhe deixou sequelas físicas. Devido a violentos estampidos aos quais acabou exposto durante treinamentos, o militar perdeu a audição de forma gradativa, se aposentando em 1956, como 2º tenente.

 A união entre Santin e Marieta, falecida em 2004, aos 80 anos de idade, resultou em 11 filhos,  23 netos, 24 bisnetos e uma trajetória de superação e amor.

      Colaborou para a matéria, Rosemarie Spinoso Rossi, filha do casal,

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