Cinerama | O Morro dos Ventos Uivantes: um grande exagero estilizado

NOTA: ✪✪

Nesta nova adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”, a diretora Emerald Fennell abandona qualquer pretensão de reverência ao peso clássico do romance de Emily Brontë, que confesso que não li, para entregar uma releitura assumidamente pop, repleta de excessos e contemporânea.

Ambientado na Inglaterra do século XIX, o filme acompanha as famílias Earnshaw e Linton, mas concentra sua força ‒ e seus desvios ‒ na relação destrutiva entre Catherine Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi). O romance, marcado por obsessão, rejeição e vingança, é tratado menos como tragédia moral e mais como um jogo de atração tóxica levado ao limite.

Fennell, que já havia mostrado apetite por estilizações radicais em “Bela Vingança”, aposta aqui em uma linguagem visual e narrativa acelerada, com montagem rápida que lembra edits de TikTok e uma trilha sonora pop pulsante, com destaque para as canções originais de Charli XCX. O resultado é um choque direto com a atmosfera lenta, opressiva e densa que consagrou o livro ‒ um contraste que parece intencional, mas nem sempre eficaz. O filme parece interessado no consumo imediato, na dopamina estética, mais do que na construção gradual de personagens corroídos pelo tempo e pelo ressentimento.

A química entre Margot Robbie e Jacob Elordi é explorada até a exaustão. A adaptação exagera na tensão sexual e na erotização do vínculo entre Cathy e Heathcliff, a ponto de, em certos momentos, lembrar uma versão de época de “Cinquenta Tons de Cinza”. Ainda assim, é impossível negar o brilho dos dois atores: Robbie entrega uma Catherine subversiva e instável, enquanto Elordi constrói um Heathcliff movido por fúria e desejo. Há exagero, há provocação e há tesão ‒ tudo muito explícito, tudo muito performático.

A direção de arte é outro ponto forte. Os cenários parecem sonhos febris ou pesadelos góticos, com cores saturadas e materiais inusitados que traduzem visualmente a loucura emocional dos personagens. No entanto, esse apuro estético não é acompanhado por igual profundidade psicológica. No fim, “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emerald Fennell é um grande exagero estilizado: fascinante na forma, ousado na superfície, mas raso ao lidar com a complexidade humana que tornou a obra de Emily Brontë eterna.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *