Ponto sem Retorno: boas ideias, mas previsível

The Dog Stars, Drama/Aventura, 2026 | Direção: Ridley Scott | Classificação indicativa: 16 anos | Duração: 1h59 | Em cartaz nos cinemas
NOTA: ✪✪✪
Hollywood já explorou à exaustão o imaginário pós-apocalíptico, tornando cada novo filme do gênero um exercício de desconfiança. Em meio a cidades destruídas, sociedades em colapso e sobreviventes atormentados, é difícil encontrar algo realmente novo. “Ponto sem Retorno”, dirigido por Ridley Scott, não rompe com essa fórmula. O filme aposta na atmosfera, na solidão e na degradação moral, mas acaba sucumbindo justamente ao que tenta evitar: a previsibilidade.
Baseado no romance best-seller de Peter Heller, o longa apresenta um futuro devastado por uma pandemia global – e a proximidade com a experiência da Covid-19 é evidente. Hig (Jacob Elordi) é um mecânico viúvo que vive isolado em um hangar no Colorado, acompanhado de seu cachorro e de um ex-fuzileiro naval ranzinza (Josh Brolin). Embora incompatíveis, os dois dependem um do outro para sobreviver em um mundo tomado pela violência.
A rotina muda quando uma transmissão de rádio reacende em Hig a esperança de que exista algo além de seu perímetro seguro. O sinal o leva a abandonar a relativa proteção do abrigo e embarcar em uma jornada de risco, esperança e acerto de contas com os fantasmas do passado.
O grande mérito está na atmosfera. Scott explora o silêncio, os espaços vazios e a sensação permanente de ameaça, enquanto a fotografia acinzentada reforça a desolação daquele mundo. A direção é elegante, com destaque para as tomadas aéreas do Cessna pilotado por Hig.
Elordi encontra o tom adequado para o protagonista, construindo um personagem silencioso e marcado pelo trauma. Brolin, por sua vez, utiliza sua presença física para compor uma figura mais áspera, cuja relação com Hig sustenta boa parte do interesse da primeira metade.
Na segunda parte, quando Hig parte em busca de respostas, o filme ganha fôlego e assume contornos mais aventurescos. São também os momentos de maior tensão, mas o roteiro não acompanha a qualidade da direção. As situações seguem caminhos previsíveis, e algumas das ideias mais interessantes ficam apenas na superfície.
No fundo, Scott parece interessado em discutir a regressão moral da sociedade após o colapso das estruturas civilizatórias. A proposta é pertinente, mas a abordagem por vezes se torna moralista e contraditória. “Ponto sem Retorno” é mais interessante de observar do que de acompanhar. Há boas ideias, ambientação convincente e momentos de tensão, mas falta personalidade ao conjunto. Em um gênero que já produziu tantos retratos marcantes do fim do mundo, o filme acaba sendo apenas mais um.

