Bienal do Livro de SP: como a literatura pode inspirar o amor?

Por Deborah Dubner* 

São milhares de livros que pulsam nas prateleiras, entre corredores e palavras. A Bienal Internacional do Livro de São Paulo reúne apaixonados pela arte da escrita como caminho para expansão de ideias, experiências, legados e sonhos. Por trás de cada página, além de talento, há pessoas e histórias. Inspirações que podem ampliar nossa disponibilidade para os encontros e para o amor.   

A psicóloga e pesquisadora americana Barbara Fredrickson, que dirige o Laboratório de Emoções Positivas e Psicofisiologia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, estuda também a dimensão biológica do amor: é nos micromomentos de conexão que o corpo sente aquele calorzinho de expansão e afeto.   

Ela nomeou esses momentos de ressonância de positividade: um estado de conexão que acontece em pequenos momentos de encontro e compartilhamento. Esses micromomentos reúnem três elementos que ocorrem simultaneamente: o compartilhamento de uma emoção positiva, a sincronia entre comportamentos e respostas biológicas e um sentimento de cuidado e interesse pelo bem-estar do outro.  

Essa conexão pode acontecer em uma conversa, em um abraço, em uma troca de olhares ou até em uma leitura compartilhada. São micromomentos de conexão que, embora breves, podem nutrir vínculos, bem-estar e saúde.  

Livros são pontes de conexão  

A literatura pode nos levar simbolicamente ao território do outro; o encontro humano permite que essa abertura se transforme em conexão real. E os livros, com seus inúmeros convites, podem abrir caminhos para encontros que expandem o peito e despertam esperança. São narrativas que inspiram nossa capacidade de nos conectar com outros mundos, externos e internos. 

Empatia, emoções e encontros 

A leitura de um livro, quando feita com presença, pode despertar emoções de todo tipo: raiva, medo, tristeza, alegria, esperança, interesse e amor. Ao acompanhar uma narrativa, o leitor pode entrar na perspectiva de um personagem e abrir-se para uma realidade nova, muitas vezes desconhecida. Nesse movimento, a literatura favorece a empatia, uma capacidade humana fundamental para a conexão. É a empatia que nos permite atravessar, ainda que por instantes, a fronteira entre o nosso mundo e o mundo do outro. A literatura oferece inúmeras oportunidades para essa travessia. 

Podemos falar em empatia cognitiva, relacionada à capacidade de compreender a perspectiva e os estados mentais do outro, e em empatia afetiva, relacionada à capacidade de compartilhar ou ressoar com seus estados emocionais. Durante a leitura, uma narrativa pode mobilizar ambas. 

Ao mesmo tempo, nem todo encontro proporcionado pela literatura é com o outro. Muitas vezes, o encontro é com nós mesmos. Uma palavra bem colocada em um contexto é capaz de nomear uma dor que não sabíamos explicar. Uma frase que chega na hora certa pode traduzir algo que sentíamos há anos, sem conseguir compreender. Uma história pode nos conectar a um desejo profundo, uma saudade esquecida, uma escolha essencial.  

Certamente, um dos encantos de caminhar por uma Bienal do Livro é perceber que podemos, em poucos metros, encontrar mundos que jamais conheceríamos sozinhos. Há livros que nos convidam a visitar histórias e conhecer pessoas diferentes de nós. E há livros nos quais, inesperadamente, nos reencontramos com uma parte de nós que estava esquecida, invisível, e se revela através da leitura. 

Ecos que ressoam  

A leitura pode levar a caminhos imprevisíveis e inusitados. O livro é um objeto inanimado que conduz ao movimento. Uma história pode despertar vontade de procurar alguém, conversar, agradecer, pedir perdão, oferecer um livro, compreender uma pessoa. 

Quando fechamos a última página, uma força invisível pode continuar ressoando, em ecos que pulsam no coração. Algo se move em uma nova direção: o livro que damos de presente porque pensamos em alguém; a história que contamos durante o jantar; o trecho que enviamos para um amigo; o conto que lemos para uma criança.  

São muitas as situações cotidianas que podem ser transformadas pela presença de um livro, fazendo com que a experiência individual da leitura atravesse a fronteira da página e ganhe o território do encontro. Quem nunca terminou um livro sentindo uma inesperada intimidade com o autor, como se o conhecesse há muito tempo? 

A literatura nos coloca diante de pessoas que talvez não frequentem nossos círculos: outras culturas, gerações, épocas, condições sociais, maneiras de amar, sofrer e enxergar o mundo. Por isso, os livros ampliam o tamanho do nosso mundo.  

Bienal: território de conexão 

Nesse sentido, a Bienal pode ser vista como um grande território de conexão. Pessoas conversam sobre livros, autores encontram leitores, desconhecidos sugerem leituras uns aos outros, crianças ouvem histórias, filas de pessoas viram conversas.  

São milhares de histórias e pessoas reunidas em um mesmo espaço. Em cada livro mora uma possibilidade de encontro, esperando para acontecer, quase uma convocação. 

E o melhor de tudo é quando um autor que passou meses ou anos escrevendo sua mensagem em solidão encontra um leitor que diz: “Seu livro falou comigo.” Fez-se a ponte, deu-se o encontro. E um micromomento de amor pode ser vivido. 

*Deborah Dubner é psicóloga e escritora, autora de sete livros sobre autoconsciência, evolução pessoal e Psicologia, com uma boa dose de poesia. Palestrante TEDx, especialista em Neurociência e Psicologia Positiva, é também graduada em Ciência da Felicidade e professora de pós-graduação em Motivação e Resiliência. 

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