Espaço Acadil | O espectador

Os carros passam. As pessoas nas mesas sorriem. As crianças brincam no chão. 

Olho para tudo com o filtro e reflito sobre a força que se tem para tanta trivialidade cotidiana.

Será que já lhes ocorreu que nada nesta vida é tão trivial assim? De onde vêm os sorrisos? Essa força que parece mover o mundo adiante, enquanto assisto a tudo, inerte na cadeira, letárgico, nostálgico, procurando no âmago a referência dessa sensação doce e parece inebriar tudo e todos à minha volta?

Desde criança penso ter nascido com defeito de fábrica. Algo em mim fazia com que não me encaixasse naquilo que para muitos era tão simples. Sorrir, brincar, cair, brigar. As cenas a que assistia se repetiam em minha imaginação – às vezes, eu era parte delas; noutras, eu adicionava uma pitada de emoção, uma licença poética.

Mas, no mundo real, eu não fazia parte desse filme tragicômico.

Uma criança olha pra mim, perguntando para a mãe quem sou. Estão na mesa ao lado. Ela também ri. Todos riem.

Ser espectador da vida é assim. Você ri do riso alheio, chora o sofrimento de outrem, e mantém hermético, na caixa de pandora no meio do peito, o caminho perdido que leva à execução das coisas mais fáceis.

As cenas me trazem lembranças, memórias, sensações quase táteis de tempos idos. Novamente, tudo acontece em minha cabeça, na minha imaginação, onde esse filme ganha cor, vida, movimento. 

Fora desse ambiente confortável dos neurônios, para mim nunca foi fácil.

Olho pro céu. Adoro o céu. Um passarinho canta. Ele também está feliz.

Paulo Stucchi
Cadeira Nº 29 I Patrono: João Tibiriçá Piratininga 

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