Espetacularização da tragédia
Por André Roedel
Desde o início da manhã do último domingo (14), as redes sociais em Itu e região foram tomadas por postagens referentes ao caso da jovem Isabela Ferreira, de 17 anos, que teria sido morta pelo cunhado, João Felipe de Oliveira Moura, após este tentar estuprá-la. O rapaz, de 20 anos, ainda se matou na delegacia central após ser capturado pela Polícia Militar.
A história todo mundo já conhece – e nos mínimos detalhes, já que as informações sobre o caso foram espalhadas pelo Facebook e pelo WhatsApp. Desde o ocorrido até agora, porém, o que se viu foi uma verdadeira espetacularização da tragédia, com mais e mais pessoas querendo saber cada ponto desse bárbaro crime.
A imprensa como um todo é a grande responsável por esse espetáculo mórbido. Como urubus atrás de carniça, alguns veículos de comunicação transmitiram quase que em tempo real, para uma grande audiência na internet, as informações que iam recebendo sobre o caso. Até mesmo quem não é da área da comunicação se tornou “jornalista” ou “especialista” nesse tipo de crime, tudo para conseguir curtidas, comentários e compartilhamentos.
A TV Bandeirantes repercutiu o acontecimento que abalou a cidade daquela forma que está acostumada a fazer. Através de seu “Brasil Urgente”, com José Luiz Datena, alardeou para milhões de brasileiros de uma forma sensacionalista. E ainda foi “premiada” com mais um caso chocante na mesma semana, a de tentativa de estupro contra uma senhora de 84 anos, fazendo link ao vivo em frente à Delegacia de Defesa da Mulher.
As discussões nas salas de faculdades de Jornalismo sobre como o profissional deve se portar ao noticiar esse tipo de caso sempre existiram – e sempre vão existir. Acredito que tragédias como essa devem ser noticiadas, mas de forma comedida e responsável. Nada desse “show midiático” que vem sendo visto na cidade desde o trágico ocorrido.
Até porque toda essa espetacularização não ajuda em nada: apenas confunde mais a população, transforma cidadãos em “vigilantes” em busca de uma pseudo-justiça e, inclusive, pode até atrapalhar as investigações das autoridades competentes.
Mas tudo isso também é “culpa” do público em geral, que é sedento por esse tipo de cobertura irresponsável. Quer todos os pormenores do caso, notícias atualizadas constantemente e em uma velocidade fora do comum. O povo sempre foi ávido por tragédias como essa – é só relembrar casos como da jovem Eloá, da menina Isabela Nardoni e dos Von Richthofen, entre outros. Isso gera um ciclo sem fim da morbidez, que resulta em uma sociedade cada dia mais acostumada com a violência ensandecida.
Não podemos fechar os olhos para crimes como esse, é claro. É dever do Jornalismo noticiar. Porém, tudo pode – e deve – ser feito com parcimônia, respeitando as regras e preceitos já estabelecidos. E que a população em geral entenda que esse espetáculo em cima de um fato tão trágico todo não leva a nada.

