MUSEUS CASA. UMA PERSPECTIVA PARA ITU?

 

Que susto levei quando me pediram para compor uma mesa redonda sobre Museus Casa! Não era pouco: um encontro anual de especialistas, organizado pelo Instituto Brasileiro de Museus durante a “Primavera de Museus”. Por que eu, que não sou desse ramo?

Lembrei-me do grupo de pesquisadores em Estética e História da Arte da USP que me visitou meses antes. Depois de percorrerem o centro histórico de Itu e a mostra-homenagem às artistas Alice Brill e Maria Célia Bombana, então em cartaz na Casa da Praça, vieram conhecer a Fazenda São Miguel, que por 20 anos sediou a AIPA, Associação Ituana de Proteção Ambiental. Certamente, foi do entusiasmo dessa turma que nasceu a indicação do convite.

Comprada em 1959 por meus pais, Dr. Juljan Czapski e Alice Brill, essa propriedade guarda marcas de uma linda história de imigrantes que desenvolveram seu amor por Itu na segunda metade do século 20.

Nascido em fazenda na Polônia que por mais de 100 anos foi da família, o adolescente Juljan teve de deixá-la quando da invasão do país na 2ª Guerra Mundial. Com sua família, viveu uma saga até chegar ao Brasil. Aqui, descobriu a medicina e conheceu sua Alice. Protagonista na área da saúde, idealizou a Medicina de Grupo no país. E, em 1986, fundou a AIPA, que por 20 anos atuou pela conscientização e regeneração ambiental da região.

Alice chegara ao Brasil em 1934 devido à ascensão do nazismo na Alemanha, sua terra natal. Foi vitoriosa no sonho de seguir a carreira paterna, artes plásticas, desenvolvendo aqui sólida posição. Além da pintura, foi fotógrafa, filósofa, escritora e professora. Por mais de 50 anos, manteve atelier na fazenda, onde pintava e preparava aulas de arte e criatividade: nos anos 1970, para a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Nossa Senhora do Patrocínio (hoje CEUNSP), depois para oficinas de ecoarte da AIPA.

“As casas históricas enquanto representantes da sociedade de uma época, ou de gerações, compartilham o legado material e simbólico de grupos e, assim, dos territórios onde estão localizados”. Como casas-museu, servem de “elo com a memória sentimental das pessoas”, proporcionando “diálogos identitários com a comunidade local e mesmo com visitantes de outras localidades”, ensina a apresentação do Encontro ao qual fui convidada.

Lembrei-me de casas museu de Itu. A começar pelas duas mais famosas: o Museu Republicano de Itu, moradia de Carlos Vasconcelos de Almeida Prado, onde ocorreu a Convenção de Itu em 1873, e o Museu da Energia, casa construída pelos Corrêa Pacheco, que depois sediou a primeira companhia de distribuição de energia da região.

Na área rural, quantas fazendas históricas maravilhosas cujas bem conservadas sedes são atrativos para turistas? Que potencial para uma estância turística como Itu apresentá-las como museus casa! Pois quem vem para conhecer, quer comer, comprar lembranças, ser levado de um atrativo a outro, repousar, se entreter. Demandas que, atendidas, movimentam a economia local.

Ah! Foi um sucesso minha apresentação na Fundação Ema Klabin, museu casa paulistano. Constatei, no debate, que minhas dúvidas sobre a validade de um museu casa focado em período tão recente como a segunda metade do século 20 era só minha.

Saí convicta que turismo é a atividade do futuro, capaz de gerar mais empregos e renda que uma indústria automatizada se instalando no município. Itu tem tudo para apostar neste veio.

 

Sílvia Czapski

Cadeira nº 04

Patrono: Dr. Benedito Lázaro de Campos