O riso que virou saudade: ituanos relembram os Mamonas Assassinas

Os jornalistas Regina Lonardi e Saulo Fernandes com a banda durante apresentação dos Mamonas Assassinas em Indaiatuba. Banda também se apresentou em Itu (Foto: José Fernando de Souza/Arquivo)

No dia 02 de março de 1996, o Brasil parava diante da notícia da morte dos cinco integrantes da icônica banda Mamonas Assassinas. O avião Learjet que transportava a banda caiu na Serra da Cantareira, em São Paulo, quando retornava de um show em Brasília. Além dos cinco músicos, morreram o piloto, o copiloto e um segurança. O país inteiro acompanhou, com comoção, o velório e as homenagens.

 Formada em Guarulhos, a banda era composta por Dinho (vocal), Bento Hinoto (guitarra), Júlio Rasec (tecladista), Samuel Reoli (baixo) e Sérgio Reoli (bateria). Misturando rock, forró, pagode, heavy metal e sertanejo com letras bem-humoradas, o grupo lançou seu único álbum em 1995 e vendeu milhões de cópias em poucos meses.

Três décadas depois, a irreverência, o humor escrachado e a energia contagiante do grupo continuam vivos na memória dos fãs. Em 1º de dezembro de 1995, os Mamonas subiram ao palco da antiga casa de shows World Music, em Itu, e protagonizaram uma das noites mais marcantes da história do espaço.

Uma aposta que virou fenômeno

Ricardo Xavier, sócio-proprietário da World Music à época, relembra que a contratação ocorreu quando o grupo ainda era uma promessa. “Quando contratamos os Mamonas, eles ainda eram uma aposta. Isso foi três meses antes do show. Logo depois que fechamos o contrato, eles foram ao programa do Faustão [TV Globo] e foi uma explosão. Já estavam sem datas até o fim do ano”, conta.

Vocalista Dinho, durante show na World Music (Foto: Arquivo pessoal/Regina Lonardi)

Segundo ele, houve até proposta para vender a data do show em Itu por um valor dez vezes maior. “O empresário me ligou perguntando se não queríamos vender a data. Eu disse que não. Já havíamos divulgado e o show aconteceria como combinado”, recorda.

Com a agenda cada vez mais intensa e a dificuldade de deslocamento nos aeroportos, a produção informou que passaria a utilizar jatinho particular — medida que começou justamente no fim de semana da apresentação em Itu. Outro pedido foi o reforço na segurança, principalmente na frente do palco.

“Nos shows anteriores, o público era atraído para perto do palco pela energia que eles transmitiam. E realmente, na World, a segurança teve muito trabalho”, relembra.

Ricardo, que cuidava pessoalmente da área artística da casa, afirma que, entre dezenas de grandes atrações, o show dos Mamonas foi um dos mais impactantes. “Foi um sucesso estrondoso. Uma banda com repertório alegre, cheio de sátira e uma energia inacreditável.”

Ricardo Xavier (à esquerda) ao lado do amigo e produtor musical Marco Camargo, que fez a produção do show dos Mamonas em Itu (Foto: Arquivo pessoal)

Quando a notícia do acidente chegou, a maratona intensa de apresentações veio imediatamente à memória. “O sucesso de uma agenda quase diária teve uma consequência desastrosa. Ficaram muitas recordações de um grupo que, em pouquíssimo tempo, virou um fenômeno”, afirma Ricardo.

Luis Fernando Chiacherini, que trabalhava como DJ e prestou apoio na casa no dia do show, recorda a lotação máxima e a fidelidade ao estilo irreverente que conquistava o país. “O show foi muito bom, lotou a casa. O que aparecia na televisão foi feito ali exatamente igual.” Para ele, o legado vai além das músicas.“O impacto foi a irreverência. Eles satirizavam de um jeito não ofensivo. Era uma alegria quase infantil. Hoje falta isso.”

Lembranças

A jornalista Regina Lonardi, do Portal Ituanos, teve a oportunidade de entrevistar os Mamonas Assassinas em duas oportunidades em 1995. A primeira entrevista aconteceu antes de um show em Indaiatuba. A segunda foi em Itu, pouco antes da apresentação na casa World Music. 

Regina Lonardi durante entrevista com os Mamonas Assassinas (Foto: Arquivo pessoal/Regina Lonardi)

“Na época, eu trabalhava na extinta TV Convenção, e a reportagem foi exibida em toda a região. Até hoje, muita gente comenta que se lembra daquela matéria. A entrevista rendeu tanto que também virou reportagem para jornal e revista. Em Indaiatuba, consegui conversar com todos os integrantes. Já em Itu, apenas três deles participaram da entrevista: Júlio Rasec e os irmãos Sérgio e Samuel Reoli”, recorda Regina.

A jornalista destaca que os Mamonas eram extremamente simpáticos. Brincalhões, como o Brasil inteiro conheceu, mas também muito educados e atenciosos. “Tinham uma energia impressionante, daquelas que tomam conta do ambiente.”

Em Itu, Regina assistiu ao show em frente ao palco, ao lado de Valéria Zoppello, namorada de Dinho. “Conversamos bastante naquela noite, e eu também a entrevistei. Mesmo após o falecimento do Dinho, ela continuou frequentando a cidade por um tempo.”

Regina recorda com carinho contato que teve com o grupo (Foto: Arquivo pessoal/Regina Lonardi)

Mesmo após 30 anos, Regina se recorda bem do impacto da morte dos músicos. “Lembro como se fosse hoje a madrugada da tragédia. Eu ouvi a notícia no rádio e foi um choque. Eles estavam no auge, arrastando multidões, conquistando o país com irreverência e talento. Como eu os havia entrevistado duas vezes, recebi muitas ligações naquela noite e nos dias seguintes. As pessoas queriam saber como eu estava”, relembra.

“A sensação foi a de perder alguém da família. E acredito que, de certa forma, o Brasil inteiro sentiu isso. Me sinto privilegiada por ter conhecido de perto esse fenômeno musical brasileiro”, complementa Regina.

Um legado que atravessa gerações

O vocalista Breno Bertagna, morador de Salto e integrante da banda cover MaMonAmour, nasceu em 1989 e conheceu o grupo ainda criança. “Não tinha dimensão do que era a banda, mas já me identificava. Posso dizer que conheci a dor de uma perda pelos Mamonas. Foi a primeira tragédia que vi e isso me marcou muito.”

Banda MaMonAmour mantém vivo o legado dos Mamonas Assassinas (Foto: Divulgação)

Hoje, ele lidera a MaMonAmour (@mamonamour), formada também por Pedro Siqueira, Eric Kikuchi e Bruno Giacometi (moradores de Indaiatuba), com o objetivo de manter viva a história do grupo. “Nos nossos shows, a quantidade de crianças entre 8 e 12 anos que sabem as letras de cor é impressionante. Recebemos desenhos, mensagens… O legado permanece vivo.”

Segundo Breno, os Mamonas representam a realização de um sonho infantil. “Eles mostraram que o impossível não existe.” Recentemente, durante apresentação da MaMonAmour em Itu, um momento emocionou o público: a participação do jovem Eduardo Sasso Patrocínio (@duzimrasec), de 12 anos.

Eduardo nasceu após a morte dos Mamonas e é grande fã do grupo (Foto: Arquivo pessoal)

“Mamonas significa muito para mim. Não é só uma banda, eram cinco garotos que eu admiro muito. Meu preferido sempre foi o Júlio, o tecladista. Ele me inspirou a tocar”, conta o garoto, que começou a estudar música no último ano. A mãe, Alessandra Cristina Sasso, destaca o entusiasmo do filho. “Ele é artista desde pequeno. O sonho dele é se apresentar em algum evento aqui em Itu. Ele quer fazer as pessoas felizes”, encerra.

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