Fracos e oprimidos
LUCAS GANDIA
Casos como o recente estupro coletivo de uma jovem de 16 anos, ocorrido há duas semanas na Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ), não nos indignam apenas pela gravidade da situação, mas por expor o quão baixa pode ser a mentalidade do ser humano. Como se não bastasse o crime existente na própria violência sexual, cometida por mais de 30 homens contra uma adolescente inconsciente, ainda houve a divulgação inescrupulosa das imagens da barbárie nas redes sociais. Exibidas como um troféu, as cenas alimentam o riso cruel de uma sociedade machista e perdida em valores invertidos.
O que leva um indivíduo a compartilhar a foto de um “homem” que posa ao lado da pelve ensanguentada de uma garota abusada? Que graça estranha motiva as pessoas a compartilharem pelo WhatsApp registros de um crime violento como esse? E mais: em meio ao caos moral, ainda há espaço para aqueles que conseguem julgar a vítima, minimizando a violência e relativizando a gravidade do caso.
Ao mesmo tempo em que a Internet se revela cada vez mais essencial à vida moderna, também se transforma no espaço ideal para uma nova Política do Pão e Circo. No Facebook cabe opinião sobre tudo, inclusive sobre o que de nada se sabe. Sedentos de divertimentos baratos, cidadãos limitados encontram em smartphones, tablets e notebooks o espaço ideal para perpetuarem a desinformação. Não basta ser ignorante, é necessário compartilhar o preconceito.
Sob o argumento de que somos livres para nos expressar – e que os perfis nas redes sociais são individuais, há quem até mesmo vanglorie frases de deputado que homenageia um dos mais violentos coronéis da tortura militar no Brasil. Quanta contradição! Quanta falta de conhecimento!
Seria toda essa truculência uma reação ao comportamento “politicamente correto” difundido nos últimos anos? Muitos alegam que o mundo está chato; que não há mais espaço para a graça. Mas, se somos livres até para pensar o impensável, o que acontece quando agredimos o próximo, gratuitamente, com o impronunciável?
Como pode haver humor por trás de uma piada machista, se uma mulher é estuprada no Brasil a cada 11 minutos, segundo dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)? Como podemos rir do comentário homofóbico, se a cada 27 horas um homossexual é assassinado no país, de acordo com o último relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB)? Como temos a capacidade de achar graça na chacota racista, se, das pessoas que morrem de forma violenta no Brasil, 68% são negros, conforme publicado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2014?
O preconceito se mostra ainda mais violento quando chegamos à constatação óbvia: nenhum homem heterossexual, branco e cristão é agredido gratuitamente no Brasil por ser homem, heterossexual, branco e cristão. Enquanto isso, apenas em 2015, foram registradas em nosso território 318 mortes de gays, travestis, lésbicas e bissexuais. E mais: segundo estudo feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública no ano passado, o risco de um jovem negro ser assassinado no Brasil supera em 2,5 vezes a possibilidade de um jovem branco ser vítima de homicídio.
Será que agora é “fácil” de entender por que não há “ditadura gay, feminista e negra” no Brasil, como muitos – no alto de seus postos privilegiados – gostam de afirmar? O politicamente correto não tem nada de hipocrisia, até porque piada machista, homofóbica e racista não tem graça nenhuma. Se o sonho de uma sociedade respeitosa e justa é sinônimo de chatice dos que defendem os “fracos e oprimidos”, confesso que adoraria morrer de tédio.
