Espaço Acadil | As tropelias de sua majestade em Itu
Poucas pessoas de nossa cidade sabem que o imperador D. Pedro II (1840-1889) esteve em Itu por três vezes. A primeira visita do monarca aconteceu em 1846, quando ele tinha 20 anos de idade – um jovem chefe de Estado, em busca de aprovação e alianças políticas. Foi recebido com muita pompa, com arcos enfeitados – idealizados por Miguelzinho Dultra – e muitos rapapés. O imperador ficou por quatro dias, hospedado na casa de Fernando Pais de Barros, e visitou os principais prédios da cidade, além de ter participado de uma caçada de veados na fazenda de António Pais de Barros, futuro barão de Piracicaba.
A segunda visita aconteceu muito tempo depois, quase trinta anos. Em 1875, após tantos acontecimentos no segundo reinado, como a extinção do tráfico de africanos escravizados (1850), Guerra do Paraguai (1865-1870), a Convenção Republicana (1873), D. Pedro II voltou a nossa cidade, já idoso, bem diferente daquele jovem ainda inexperiente nas artes da política – e, para bem da verdade, política nunca foi o seu forte. Mais uma vez, visitou os principais pontos da cidade, incluindo as igrejas e os colégios, recebido com certa animosidade pela Questão Religiosa, um dos ‘calcanhares de Aquiles’ da fase final do seu governo.
A última passagem por nossa terra aconteceu em novembro de 1886, três anos antes da sua saída repentina pelo golpe republicano. Foi uma breve estada, quando visitou, entre outros locais, as duas fábricas têxteis no Salto. Desta visita, Francisco Nardy Filho narra uma curiosa situação: ao saber de uma figura popular das ruas centrais da cidade, João da Mata, que costumava usar uma casaca, dizendo-se imperador, e que brigava com quem ousasse gritar-lhe um “Viva a República”, o imperador resolveu provocá-lo. Aproximando-se o pobre homem da janela da casa do visconde de Parnaíba, onde hospedara-se o monarca, fez-lhe um cumprimento respeitoso, e recebeu um “Viva a República” de D. Pedro II. Perplexo, João da Mata exclamou: “Até você! Pois depois não se arrependa quando assim também lhe gritarem”. Resposta mais profética, impossível.
Além do imperador, outros membros da família real brasileira também conheceram Itu. A princesa Isabel aqui esteve, em 1884, com o marido Conde d’Eu, ficando na casa onde hoje reside nossa querida confreira Maria Lúcia Marins e Dias Caselli. Na ocasião, ela visitou as igrejas e entregou quatorze cartas de alforria a escravizados da cidade, antecipando o 13 de maio a algumas pessoas, para a ira dos escravagistas ituanos – cuja fama conhecemos muito bem.
Fica aqui registrada, portanto, a lembrança dessas visitas imperiais, nesta semana em que se comemora o bicentenário de nascimento de D. Pedro II. Itu, que havia declarado fidelidade a Pedro I, nas vésperas da independência, décadas depois, abraçou os ideais republicanos; uma cidade de contrastes, sem dúvida!
Leonardo Silveira
Cadeira Nº 37 I Patrono: Augusto César de Barros Cruz

