Espaço Acadil | Baleia

Nas últimas férias, separei alguns livros para ler. Um dos escolhidos foi “Vida Secas”, um clássico da nossa literatura, do escritor alagoano Graciliano Ramos.

Não me recordo como esse exemplar veio parar em minhas mãos; creio que o peguei na estante do Instituto onde trabalho, em uma estante democrática na qual você pega os livros que quiser e também repõe outros, devolvendo exemplares que julgar interessantes para os demais.

Acho que escolhi esse livro porque, salvo um lapso de memória, foi um dos primeiros que li quando estava no ensino médio. Lembro-me da aula em que a Prof.ª Gema, após ter proposto a leitura semanas antes, foi perguntando, um a um, o que mais chamara a nossa atenção na obra.

Não consegui me lembrar da razão, mas recordei-me de que respondi sobre a Baleia, uma das personagens do romance. Agora, pensei comigo: talvez nessa releitura eu me recorde do porquê escolhi a cachorrinha em resposta à pergunta.

Qual foi a ideia de Graciliano – pensei durante a segunda leitura – de nomear a cadelinha com a denominação de um animal aquático? De onde Fabiano ou Sinhá Vitória ou um dos filhos tirariam essa ideia? Que sabiam eles, analfabetos das letras, sobre o mar e seus habitantes, sendo que viviam no árido sertão nordestino? É um dos contrastes propositadamente estabelecidos na obra pelo autor.

Graciliano, um meticuloso artesão de palavras, vai construindo e propondo uma sequência para a leitura, sendo que os capítulos podem ser lidos em qualquer ordem. Com uma linguagem direta e simples, um estilo seco, utilizando economicamente os adjetivos, o escritor consegue transmitir a esterilidade do ambiente e seus efeitos sobre as pessoas que ali vivem.

Vidas Secas é o relato de uma família que caminha pelo sertão nordestino, num cenário de riachos secos, sol escaldante, animais mortos pelo caminho, sede e fome… Entre a esperança e a desesperança, Fabiano, Sinhá Vitória, os dois filhos e a cadelinha vivem um cotidiano opressor, submetidos a toda sorte de obstáculos de ordem física e social, em condições análogas à escravidão.

Escrito em 1938, o autor – um dos mais importantes da segunda fase modernista – reflete sobre a aridez do sertão. É uma narrativa de coragem, desamparo, desesperança, saberes e aborrecimentos de seres humanos que seguem à procura de um lugar no mundo. E o romance e a saga dos sertanejos, desumanizados pela seca, não têm fim nem começo; ao final da leitura percebe-se que a vida deles está traçada em um círculo: a caminhada pela terra árida apresentada na abertura volta ao final, no horizonte próximo da família.

Terminada a leitura, voltei então à Baleia. Creio que consegui responder ao meu questionamento sobre a personagem que escolhi à época do colégio: pureza, inocência e honestidade; Baleia é apresentada no livro de uma forma mais humanizada que os próprios humanos da família protagonista.

Rubens Pantano Filho
Cadeira Nº 10 I Patrono: Ulisses de Moraes

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