Espaço Acadil | Por uma Globalização solidária

Alguns estudiosos teimam que a Globalização surgiu quando as caravelas ibéricas cruzaram oceanos e promoveram grandes navegações comerciais entre Ásia, África, América e Europa. Quinhentos anos depois, chegamos a um lugar desconfortável em que a lógica do mercado superou as formas de pensar um mundo melhor aos seres humanos, dado o consumo desenfreado, muito maior do que realmente necessitamos, que está gerando fortunas impressionantes a poucos e a miséria material e cultural a bilhões de pessoas. Quem criou a teoria atualíssima sobre esse prejuízo foi o geógrafo brasileiro Milton Santos (1926 – 2001), de quem lembramos, nesta semana o centenário de nascimento. 

O mundo passou a prestar a atenção em um negro da periferia do mundo quando ele questionou a Globalização, estudioso da chamada Geografia Crítica, que veio desconstruir a ciência, outrora investigação do espaço por si mesmo, analisando-a a partir das ações humanas. 

Nascido em Brotas de Macaúbas, o Prof. Milton Santos foi educado em casa, pelos pais, professores. Depois estudou o curso ginasial em um internato em Salvador, formando-se em Direito, único negro da turma. Sensibilizado pela leitura da obra do médico e geógrafo pernambucano Josué de Castro (1908 – 1973), que identificou a fome como causa de problemas sociais do Nordeste (estudo que serviu à criação do salário mínimo ao trabalhador urbano brasileiro), Milton Santos revolucionou a visão sobre a Geografia Urbana ao criar o conceito de meio técnico-científico-informacional. Segundo ele, após a Segunda Guerra Mundial, a chamada Terceira Revolução Industrial desenvolveu uma intensa transformação técnica, baseada em conhecimento científico e da informação para a produção industrial em escala mundial, o que transformou o espaço geográfico. 

Milton Santos apontou que esse contexto de progresso material proporcionou dois grandes problemas à humanidade, o desenvolvimento intelectual e técnico voltado somente ao mercado e ao lucro de grandes empresas e um custo ambiental que nos fez chegar, por exemplo, ao aquecimento global e miséria do século XXI. 

Obrigado a deixar o Brasil durante a ditadura civil-militar, na década de 1960, Milton Santos passou a lecionar em grandes universidades na Europa, nos EUA e na América Latina, “doutor honoris causa” em quarenta e duas delas, quando desenvolveu outros estudos sobre a Globalização. Os 33 livros que publicou relevam a lógica perversa do sistema, dominado por grandes corporações, que divulgam, através da propaganda, a fábula do consumismo, oferecendo a ideia de que os benefícios da Globalização são acessíveis a todas as pessoas. 

A grandeza da obra desse extraordinário brasileiro baseia-se na proposta de uma outra Globalização, inclusiva, que parta das periferias do mundo, pela democratização da tecnologia, para distribuir bens necessários à humanidade e não ao mercado, teoria, no mínimo, inspiradora. 

Luís Roberto de Francisco
Cadeira Nº 30 I Patrono: Tristão Mariano da Costa 

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