Em Itu, processo de doação de órgãos envolve acolhimento, avaliação e solidariedade
Falar sobre doação de órgãos nem sempre é uma tarefa fácil. O assunto envolve a perda de pessoas queridas, dúvidas, medos e decisões tomadas em um momento de profunda dor. É justamente para ampliar essa conscientização que existe o Setembro Verde, campanha que tem como uma de suas principais datas o Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado neste domingo (27).

De acordo com a médica intensivista Dra. Nádia Ricci Guilger, cooperada da Unimed Salto/Itu, a campanha tem papel importante para estimular a sociedade a conversar sobre o tema antes que uma situação de morte aconteça. Para ela, falar sobre doação significa também esclarecer dúvidas, combater informações equivocadas e permitir que cada pessoa manifeste à família qual é a sua vontade.
“Falar salva vidas e ressignificar os lutos relacionados a perdas de pessoas queridas”, afirma a especialista. Segundo a Dra. Nádia, quando o assunto é transplante renal, a discussão ganha ainda mais importância, já que o rim é o órgão mais esperado na fila brasileira. Conforme dados citados pela médica, quase 74 mil pessoas aguardavam ativamente por um órgão no fim de 2025.
De acordo com a médica, quando os parentes conhecem a vontade do ente querido, a decisão tende a ocorrer com maior tranquilidade em um momento marcado pela dor. “Quem quer doar precisa dizer isso em voz alta, para quem ama”, destaca a intensivista.
A médica procura desmistificar a ideia de que existe um perfil único de doador. Segundo ela, não é necessário ser jovem ou ter uma saúde considerada perfeita. A avaliação é feita individualmente e cada órgão é analisado para verificar se apresenta condições de ser aproveitado. Doenças crônicas e idade, isoladamente, não impedem necessariamente a doação. A avaliação médica é que determinará quais órgãos ou tecidos poderão ser utilizados.
Para a Dra. Nádia, muitos dos receios apresentados pelas famílias estão relacionados à falta de informação. Um deles é a dúvida sobre a confirmação da morte encefálica. A especialista explica que o diagnóstico segue um protocolo rigoroso, com avaliações clínicas realizadas por médicos habilitados e exames específicos.
No caso do doador vivo, o rim é um dos exemplos mais conhecidos. A pessoa precisa passar por avaliação de saúde e, conforme explicado pela especialista, a legislação estabelece critérios específicos, incluindo parentesco até o quarto grau ou vínculo conjugal.
Em Itu, de acordo com a Prefeitura, a doação de órgãos após a morte ocorre principalmente a partir de pacientes internados na Santa Casa de Misericórdia. O hospital possui uma Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT), que trabalha em conjunto com a Organização de Procura de Órgãos (OPO). A comissão atua na identificação de potenciais doadores e na organização das etapas necessárias para que o processo possa avançar.
Quando há suspeita de morte encefálica, é realizado o protocolo médico específico para confirmação do diagnóstico. Depois da confirmação, a família é comunicada e consultada sobre a autorização da doação. Com a autorização, são feitos exames para determinar quais órgãos e tecidos apresentam condições de aproveitamento. A Central de Transplantes coordena a distribuição conforme os critérios estabelecidos pelo Sistema Nacional de Transplantes, levando em consideração fatores como compatibilidade, urgência e tempo de espera.
As equipes especializadas realizam a captação na Santa Casa e os órgãos são posteriormente transportados para os hospitais onde estão os pacientes que receberão os transplantes. Em situações de morte ocorrida fora do ambiente hospitalar, o processo é diferente. Em determinadas circunstâncias, pode haver a possibilidade de captação de córneas, desde que o caso seja comunicado rapidamente à Central Estadual de Transplantes.
Experiência
A técnica em Segurança do Trabalho Ana Lucia Durães Agostinho, de 46 anos, conhece de perto as duas faces do transplante renal. Sua história começou em 2010, quando uma doença que ainda não havia sido diagnosticada provocou o comprometimento de sua função renal.

Durante as investigações, os médicos identificaram a insuficiência renal crônica e ela precisou iniciar a hemodiálise. Dois anos depois, em 2012, veio o transplante. A recuperação, porém, não ocorreu da maneira esperada. O organismo apresentou dificuldades com um dos medicamentos imunossupressores e ela enfrentou uma série de complicações e internações ao longo dos anos.
Em 2022, durante a pandemia de Covid-19, Ana Lucia contraiu a doença e permaneceu 21 dias internada em uma UTI. Segundo seu relato, apresentou falência de vários órgãos e, após a recuperação, perdeu o rim transplantado. Desde então, voltou à hemodiálise.
Atualmente, ela não pode entrar novamente na fila para receber um rim de doador falecido em razão de uma doença autoimune identificada durante o período do transplante. Um transplante com doador vivo também poderia ser considerado, mas envolveria riscos, motivo pelo qual ela e seu médico optaram por não realizar uma nova tentativa neste momento.
Em meio a sua trajetória, Ana Lucia destaca a importância da doação de órgãos. Para ela, a experiência mudou sua percepção sobre o assunto e reforçou a necessidade de que as famílias conheçam a importância desse gesto.
A transplantada lembra que milhares de pessoas dependem atualmente de um órgão para ter a possibilidade de mudar sua rotina. Ela também conhece de perto a realidade dos pacientes que passam horas conectados a uma máquina de hemodiálise. “Eu acho que as pessoas deveriam ter em consciência a doação de órgãos, que ela pode salvar vidas”, conclui.

