Espaço Acadil | Prof. Bacellar, presente

Esta singela homenagem poderia ter sido intitulada “Adeus a um mestre”, como é praxe em elogios fúnebres. Mas, para o caso do Prof. Carlos de Almeida Prado Bacellar, falecido a 15 de março deste ano, não seria apropriado utilizar o termo “adeus”. Pelo contrário, um mestre como ele não desaparece assim, sem mais nem menos. Suas aulas e seus textos ficam para sempre na memória dos seus alunos e de todos aqueles que puderam, um dia, conviver com a sua sabedoria.

Graduado e pós-graduado pela nossa Universidade de São Paulo, Carlos Bacellar direcionou os seus estudos para a São Paulo colonial, trabalhando com documentação primária das mais áridas: inventários post mortem, testamentos e, principalmente, maços de população do século XVIII. Sua dissertação de mestrado, intitulada Senhores da terra, versou sobre elites agrárias e sucessão fundiária, utilizando como exemplos algumas famílias ituanas de proeminência no final do período colonial. Já sua tese de doutorado, Viver e sobreviver em uma vila colonial, explorou o comportamento demográfico dos habitantes de Sorocaba, no mesmo período da história brasileira. Dois grandes trabalhos de referência, indispensáveis a quem se lança a estudar família e sociedade na América portuguesa.

Para Itu, o professor contribuiu de forma magistral no período em que foi supervisor técnico-científico do Museu Republicano “Convenção de Itu”, entre os anos 2005-2007. Nesse tempo, ele promoveu dois grandes encontros de pesquisadores, um sobre a produção do açúcar e outro sobre a do café, seminários inesquecíveis a quem participou, momentos de grande riqueza intelectual e cruzamento de novas ideias. Destaca-se, também, sua passagem brilhante como coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo, tendo sido responsável pela transferência desta instituição à administração da Casa Civil estadual, além da transferência física do arquivo para uma nova sede, mais adequada estruturalmente. Além disso, promoveu o compartilhamento digital de documentos, incluindo os do Dops.

O Prof. Bacellar foi sempre um incentivador das pesquisas de seus alunos, mesmo daqueles que, apesar de não serem seus orientandos, encontravam no generoso historiador paulista um conselho sábio, uma indicação nova ou mesmo as críticas construtivas de alto nível. Pude ser seu aluno durante o mestrado, por um semestre, em uma disciplina sobre História da Família; as discussões promovidas naquelas doze aulas ficaram para sempre retidas na minha lembrança e na minha formação acadêmica.

Sem seu rigor científico e sua solicitude sempre amável para com todos, a história paulista não teria sido a mesma, e ela muito ressentirá sua ausência por novos estudos.

Que a paixão que este já saudoso mestre nutria pela história permaneça viva em todos aqueles que não desistirem de lutar por um presente melhor do que este que o passado nos legou. 

Prof. Bacellar, presente!

Leonardo Silveira
Cadeira Nº 37 I Patrono: Augusto César de Barros Cruz

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