O centenário de uma “otimista incorrigível”

Educadora, cronista e, principalmente, uma otimista incorrigível. Assim se define Maria Angela Pimentel Mangeon Elias, que celebrou 100 anos de vida na última quinta-feira (11). Uma das principais vozes da cultura e da educação local, a professora é um verdadeiro patrimônio vivo de Itu. O JP presta uma necessária homenagem a ela, trazendo um pouco de sua trajetória e homenagens de amigos.
Ela nasceu em Amparo, em 11 de junho de 1926, na fazenda da família, próxima à divisa com Serra Negra. Viveu a infância em Amparo e, em 1935, mudou-se para Campinas para estudar. Concluiu o ensino primário aos 10 anos e, aos 15, já era Bacharel em Ciências e Letras. Em 1942, ingressou na primeira turma da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Campinas (atual PUC-Campinas) e, no último ano, cursou também Orientação Educacional, formação que marcou sua trajetória no magistério.
Em 1945, passou a morar sozinha em Campinas para concluir a graduação, enquanto a família retornava para Amparo. Formou-se no fim daquele ano, aos 19 anos, obtendo dois diplomas. Em 1946, realizou cursos de pós-graduação em Inglês e Língua Norte-Americana na capital paulista e foi aprovada no concurso do Magistério Oficial do Estado de São Paulo. Nomeada professora interina de Inglês em Cajuru, conheceu ali Lauro Elias, com quem se casou.
Mudança para Itu
Maria Angela mudou-se para Itu em maio de 1959, já mãe de quatro filhos: Paulo Eduardo, os gêmeos Carmen Sílvia e Lauro Elias Júnior, e Lilian Maria. Veio para assumir um cargo no Instituto de Educação Estadual Regente Feijó, após ser aprovada em concurso de remoção do Magistério Secundário e Normal do Estado.
Em 1962, tornou-se vice-diretora da instituição, função que exerceu até sua aposentadoria, em 1976. Em 1969, participou da fundação da Faculdade de Direito de Itu e integrou sua primeira turma, formando-se em Direito em 1973. Em 1976, a convite do reitor da USP, Miguel Reale, passou a atuar no Museu Republicano “Convenção de Itu”, colaborando com o historiador Jonas Soares de Souza na organização e classificação do acervo. No mesmo ano, aposentou-se após três décadas dedicadas ao magistério.
Entre as homenagens recebidas estão o Título de Cidadania Ituana (1980), a Ordem do Mérito Cívico, Cultural e Social, a Ordem do Mérito Pero Vaz de Caminha e a Ordem do Mérito da AFPESP, todas no grau de Comendadora. Integrante da Sociedade Amigos da Cidade de Itu (SACI), ajudou a fundar, em 1992, a Academia Ituana de Letras (ACADIL), da qual foi vice-presidente. Ocupa a Cadeira nº 17, cuja patrona é a escritora Olívia Sebastiana da Silva.
DEPOIMENTOS:
Há pessoas que não se limitam a passar pelo mundo, mas atendem ao chamado ímpar de iluminar o caminho de gerações inteiras. Ao longo de um século de vida (e que vida!), a professora Maria Angela construiu muito mais do que instituições, projetos educacionais e realizações que marcaram a história de Itu. Plantou referências. Deixou um legado inestimável. Daqueles que permanecem mesmo depois que a aula termina. Que não se apagam na lousa do tempo. Sempre a enxerguei como uma mulher à frente do seu tempo. Quando precisou enfrentar desafios, manteve-se em frente, sem jamais se afastar dos valores que a tornaram admirável. Sua elegância nunca esteve apenas na forma de se vestir ou de se expressar, mas na maneira como trata as pessoas, honra a palavra dada e acredita no poder transformador da educação. Aos cem anos, Maria Angela continua sendo um raro exemplo de inteligência, coragem, generosidade e otimismo. Uma dessas presenças que fazem bem ao mundo simplesmente por existirem. Para mim, é uma honra ter conhecido sua história e, humildemente, ter participado dela também. Maior que isso, só a alegria de poder chamá-la de amiga.
Com carinho e profunda admiração,
Rodrigo Stucchi
Jornalista, escritor e biógrafo
Autor do livro “Maria Angela – à frente e em frente”
Ocupante da Cadeira nº 02 (patrono: professor Cid Rocha)
A atuação da Profa. Maria Angela é um exemplo de dedicação à cultura e à educação. Foi a responsável pela criação do primeiro centro universitário em Itu, do qual dirigiu a parte pedagógica e administrativa por décadas, com energia e capacidade criadora invejáveis. Ao presidir a ACADIL, a acadêmica Maria Angela conquistou espaço na imprensa, nos meios educacionais e criou novas publicações que marcaram um momento de expressiva representatividade à Academia Ituana de Letras.
Neste momento em que ela está completando o centenário de vida, quero abraçá-la como gesto de gratidão da ACADIL, mas também como agradecimento pessoal pela amizade e solidariedade.
Luís Roberto de Francisco
Presidente da ACADIL
Professor, historiador e músico
Ocupante da Cadeira nº 30 (patrono: Maestro Tristão Mariano da Costa)
“Conheci Maria Angela no Colégio Regente Feijó, quando veio lecionar em Itu. Era excelente professora de inglês e ambientou-se logo com os colegas e alunos, pela simpatia. Sempre primou pela elegância e, mesmo hoje, completando essa bela data redonda, encontra-se elegante e esguia. Adaptou-se à nossa querida Itu, aqui permanecendo para felicidade da área educativa. Sabemos o quanto a cidade deve a ela, especialmente pela criação de cursos superiores, mostrando-se incansável nesse labor intrincado. A cidade agradeceu-a dando-lhe o título de cidadania merecidamente. Assim, tornou-a merecedora da gratidão de todos que amam Itu.”
Dra. Maria Lúcia Almeida de Marins e Dias Caselli
Professora, advogada e ex-vereadora
Fundadora da ACADIL
Ocupa a Cadeira nº 01, cujo patrono é seu pai, Euclydes de Marins e Dias
“Há vidas que não apenas passam pelo tempo: elas deixam marcas no tempo. Em 1962, tive a felicidade de ser aluno de Inglês da professora Maria Angela Mangeon Elias no Instituto de Educação Estadual Regente Feijó, em Itu. Naquela época, encontrei uma mestra dedicada, culta e admirável, que transmitia, junto com o conhecimento, valores que permanecem: responsabilidade, elegância, amor aos estudos e respeito pela palavra. O tempo, generoso guardião das histórias, trouxe-nos um reencontro especial. Desde 2019, tenho a honra de caminhar ao seu lado como confrade na Academia Ituana de Letras. A antiga professora tornou-se colega de jornada literária, e a admiração de aluno transformou-se em gratidão ainda maior. Hoje, ao celebrar seus 100 anos, Maria Angela revela a beleza de uma trajetória construída com inteligência, sensibilidade e uma extraordinária disposição para viver. Sua vida é uma verdadeira Coleção de Lembranças: páginas escritas com experiências, afetos, ensinamentos e testemunhos de uma época que ela soube guardar e compartilhar. Professora, escritora e memorialista, Maria Angela pertence àquela rara categoria de pessoas que envelhecem apenas no calendário, pois conservam jovem o pensamento, a curiosidade e a capacidade de encantar. Que seus 100 anos sejam recebidos como uma grande obra: uma obra de dedicação ao ensino, de amor à literatura e de contribuição à cultura de Itu e de todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la. Minha homenagem nasce da dupla alegria de ter sido seu aluno e, hoje, seu confrade. Mas, acima de tudo, nasce da profunda admiração por uma mulher que fez da própria vida uma lição. Com carinho e gratidão.”
Roberto Melo Mesquita
Mestre em Língua Portuguesa e pedagogo
Ocupa a Cadeira nº 33, cujo patrono é o poeta Bento Dias Pacheco
“Existe uma frase tradicional judaica que falamos para o aniversariante: até os 120 anos! É isso que desejo para nossa querida Maria Angela. Ela foi uma das primeiras pessoas que conheci ao me mudar para Itu e me abriu as portas para o mundo cultural desta cidade. Foi a indicação dela que me levou à Academia Ituana de Letras. Com ela aprendi, como centenas dos alunos que ela formou, a conhecer e entender a cidade de Itu. Maria Angela é de uma gentileza ímpar. Sempre atenciosa e dedicada aos amigos. Amigos que nunca faltaram. Em sua casa sempre os recebe com carinho e atenção. Quanto a isso, tenho até uma história pitoresca. Certa vez ela me convidou para seu aniversário, faria uma feijoada para os amigos. Ela sabia que sou alérgico a alho e ao me convidou garantiu: ‘- Venha sem medo, não haverá alho’. Não havia, foi a melhor feijoada que comi com a companhia mais agradável possível. Maria Angela, até os 120 anos!”
Marcio Pitliuk
Escritor, teatrólogo, cineasta e palestrante
Ocupa a Cadeira nº 04, cujo patrono é o Dr. Benedito Lázaro de Campos

